quarta-feira, 4 de junho de 2014

Os Kiriri em Simões Filho participaram do IX Encontro do Fórum de Cultura da Bahia

A vinda de 7 membros do Povo Kiriri, das Aldeias Marcação e Mirandela, do município de Banzaê, localizado no semiárido da Bahia, para participarem do IX Encontro do Fórum de Cultura da Bahia e para exporem produtos da Fábrica de Biscoitos e do Artesanato, quando, Maria de Souza de Jesus - Kiapuan, fez parte da Mesa dos Mestres da Cultura: Instituição e costume de uma sociedade: Tradição Oral, Memória e Corporal.


Kiapuan é sobrinha do conhecidíssimo Cacique Lázaro Gonzaga de Souza ou Lázaro Kiriri. Ela o substituiu na oportunidade em virtude de que seu tio estava imerso na manutenção das roças e das cabras. Cuidado estratégico para seu povo que habitam a Aldeia de Mirandela. Esta região do semiárido sobrevivência a intensos períodos sem chuva e que associado a este fenômeno um agudo problema socioambiental se instalou em razão do desmatamento e queimadas entre outros elementos utilizados na pecuária dos não índios.

A Fábrica de Biscoitos é liderada por Dilma de Jesus Santos Kiriri e Sandra Beatriz Jardim Souza Kiriri. Os produtos da Casa do Artesanato é liderada por Genivaldo de Jesus Teodoro (Arati).

Além destes fazem parte deste grupo: Adjaime Jesus dos Santos Kiriri, Antônio Almeida Reis Kiriri, Hingrid Jardim Souza Kiriri.

O Secretário Municipal de Cultura, Jorge Salles, em nome da Prefeitura de Simões Filho, agradeceu ao cacique Lázaro Kiriri, a Reinaldo Mendes Kiriri e a prefeita Patrícia Almeida pela vinda dos representantes do povo Kiriri no importante evento deste Fórum Cultural do Estado da Bahia.

No primeiro dia do fórum também interagiram com os Kiriri membros dos povos Fulini-ô e Kariri-Xocó que estão na Reserva Thá-Fene, localizada no município de Lauro de Freitas. Juntos realizaram um ritual e expuseram seu artesanato.

Os Kiriri nos três dias do IX Encontro do Fórum de Cultura da Bahia expuseram seu artesanato e ao final apresentaram um toante, ritual de seu povo e cantaram na sua língua ancestral.

FIGURAS PRECIOSAS


Nesta oportunidade do IX Encontro do Fórum de Cultura reencontrei figuras que muito prezo, entre elas abracei, Jeane com sua emocionante interpretação de “Canudos, 1897” de Carlos Pita (ver a letra abaixo), imortalizada na voz da cantadora Roze de Tucano (BA), o cantor e compositor Val Macambira, que viera como membro do Conselho Nacional de Política Cultural, Sonia Bastos e Taquary Pataxó, líder dos Estudantes da UFBA, que proferiu e cantou em Patxorã, língua originária do seu povo, Kiapuam que também falou e cantou em Kipeá (Kiriri) e, entre outras, as simpatias das presenças de Fernando do Recife, Hamilton Oliveira, Graça Dias, Paulo e Sônia Argôlo, entre outras...


Canudos, 1897
(Letra e música: Carlos Pita)

O sangue virou água
E se fez Cocorobó
A morte virou corisco
E cortou o coração
A justiça virou fogo
E corre atrás dos coronéis
Valei-me meu Conselheiro
Pela desgraça do vintém
Que a terra é de todos
A terra é de ninguém

Créditos das fotos: Sônia Bastos e Ademario Ribeiro.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Cofo da leitura e escrita na escola indígena

(En)Cena entrevista Maria Aparecida da Rocha Medina, professora que coordena projeto de extensão na comunidade indígena

Por Letícia Bender - Acadêmica de Jornalismo do CEULP/ULBRA 


Despertar nas crianças o interesse pela leitura e escrita. Com este objetivo, desde o início deste ano, o projeto de extensão Cofo da leitura e escrita é desenvolvido na escola indígena Waikarnãse, localizada na Aldeia Salto, no município de Tocantínia (TO) a 90 quilômetros da capital Palmas.
Na entrevista, a professoraMaria Aparecida da Rocha Medina, mais conhecida como Cidinha, conta ao (En)Cena sobre o despertar do projeto desenvolvido pelo Centro Universitário Luterano de Palmas (CEULP/ULBRA) e como são esses encontros com as crianças Xerente.

Professora Maria Aparecida da Rocha Medina, coordenadora do projeto Cofo da leitura e escrita na escola indígena. Foto: Arquivo do Projeto

(En)Cena - Para entendermos, o que é o cofo? Por que o projeto tem esse nome?
Maria Aparecida - O Cofo é um artefato indígena, confeccionado com folhas de buriti. Ele é utilizado no transporte de mandioca, milho, banana e outros alimentos da roça para a aldeia. Quando cheio, passa-se a alça do cofo na testa é assim que é transportado.
Considerando o valor cultural e utilitário do cofo, colocamos o nome do projeto de “Cofo de leitura”. Isso porque o cofo está sendo pouco utilizado, uma vez que a maneira dos indígenas não desenvolve mais as atividades tradicionais: plantar roça e transportar os alimentos. Muitos que antes viviam do cultivo da roça exercem  funções que ocupam grande parte do tempo, como cargo de funcionários públicos, prestação de serviço em outras funções. Acabam por comprar grande parte dos  alimentos consumidos na aldeia em supermercado das cidades de Tocantínia.

Professora Maria Aparecida apresentando o Cofo da Leitura às crianças indígenas. Foto: Arquivo do Projeto

Entretanto, para ressignificar o sentido do cofo e a sua importância no contexto cultural do povo Xerente, pensou-se em colocar esse nome do projeto, atribuindo ao tradicional cofo o artefato de transportar livros. Durante o momento de leitura na aldeia, a professora enche o cofo de livros e passa entre as crianças para que elas escolham o livro que desejam ler.

Cofo utilizado para guardar literaturas. Foto: Arquivo do Projeto

(En)Cena - E por qual motivo escolheu-se trabalhar com as crianças Xerente da escola indígena Waikarnãse?
Maria Aparecida - Nos 18 anos que estou em Palmas, o primeiro povo que tive contato foi com os Xerente. Embora tenha admiração e carinho pelos demais povos: Karajá, Javaé, Krahô, Apinajé, Krahô kanela, por meio do trabalho no Magistério Indígena. Mas é com os Xerente que o contato é mais freqüente e a cada ano a nossa convivência se fortifica. Talvez seja por ser mais próximo a Palmas e a gente está sempre se encontrando. Seja em trabalho na aldeia com os alunos da Ulbra, seja em atividades culturais que venham desenvolver na universidade. Em nível de universidade, já são quase 10 anos de parceria. Nós levamos acadêmicos à aldeia, e de vez em quando, vem um professor indígena para vivenciar praticas didáticas e metodologias na universidade.

Aluna da escola Waikarnãse procurando livros no Cofo. Foto: Arquivo do Projeto

Além da estreita relação com o povo Xerente, por meio dos projetos e trabalhos acadêmicos, também passei um tempo na aldeia Salto Kripre, desenvolvendo minha pesquisa de mestrado. Esse contato mais direto de permanência convivendo com eles proporcionou-me rica experiência e grandes descobertas, antes eram apenas superficiais.
Durante a pesquisa com os professores e as observações em sala de aula, vi o desafio que é alfabetizar um Akwe, uma vez que as crianças são falantes da língua materna, portanto, alfabetizadas nas duas línguas.

Contação de histórias desenvolvida pelo projeto. Foto: Arquivo do Projeto

A educação dos povos indígenas, tradicionalmente ágrafos era um atributo dos mais velhos que transmitiam os conhecimentos oralmente aos mais novos. Na cosmologia tradicional Xerente, segundo Medina (2013), ler era uma ação cotidiana de decifrar os sinais da natureza, o movimento das coisas e a relação destas com os espíritos protetores que os ajudavam a compreender ao menor sinal da natureza e interpretar os seus significados.
Com o acesso à sociedade ocidental e a intensa relação de contato fez-se adentrar a escrita e a leitura na cultura a partir da catequização, depois, como estratégia para dialogar com os brancos. E, atualmente, o acesso à leitura e a escrita são direitos garantidos da Constituição de 1988, por meio de uma educação diferenciada, bilíngue e intercultural.
A leitura e a escrita, como em todas as modalidades e níveis de ensino é essencial para o desenvolvimento de habilidades e competências na formação de leitores e escritores, bem como no exercício de cidadania. Dessa maneira, é um processo em construção.

Crianças escolhendo livros no Cofo. Foto: Arquivo do Projeto

Atividade de desenho e pintura com crianças Xerente. Foto: Arquivo do Projeto

Na escola Xerente, as crianças são alfabetizadas na língua materna. Só a partir do 3º ano inicia-se o processo de construção da letro- escrita da Língua Portuguesa, embora o contato com a 2ª língua é uma constante na aldeia. Ao acessar os textos da 2ª língua no livro didático, elas deparam com leituras extensas e descontextualizadas da realidade sociocultural, dificultando ainda mais a compreensão, conforme declarou um professor indígena durante a minha pesquisa.

Encontro do projeto na Aldeia Salto. Foto: Arquivo do Projeto

Diante do exposto, uma maneira de contribuir com essa comunidade, a qual me acolheu e sempre está aberta às ações pedagógicas dos cursos de licenciaturas da ULBRA, foi desenvolver esse projeto em parceria com o cacique e diretor da escola e a e a equipe de professores. Sem eles é impossível alguém de fora desenvolver um projeto, principalmente quando se trata da leitura, considerando a língua e a cultura diferentes dos atores principais.

Atividade do projeto de extensão. Foto: Arquivo do Projeto

Segundo os PCNs (1998), a leitura tem como finalidade formar leitores competentes, capazes de compreender o mundo e descrevê-lo por meio da escrita, em diferentes contextos socioculturais, onde o uso do texto tem o seu significado. Na sociedade ocidental, historicamente letrada, o exercício da leitura e da escrita sempre foram vistos como atributos de poder da classe dominante. Enquanto o “outro” conformava-se apenas com a codificação das frias letras do seu nome, desenhadas para legitimar o poder dos dominadores por meio do voto. Para os indígenas, apropriar dessas habilidades é escrever a sua própria história.

Alunos buscando livros no Cofo. Foto: Arquivo do Projeto

Criança concentrada fazendo leitura. Foto: Arquivo do Projeto

Crianças durante atividade desenvolvida pelo Cofo. Foto: Arquivo do Projeto

(En)Cena - De quais formas o projeto alcançará o objetivo de desenvolver a habilidade da leitura e escrita nestas crianças? Quais são as metodologias utilizadas?
Maria Aparecida - Sabemos que é na relação com a comunidade social que a criança desenvolve as múltiplas linguagens: corporal, verbal oral e não verbal e a escrita. A linguagem corporal e verbal é bem aflorada nas crianças, o que facilita a escrita e a leitura. As crianças gostam de livros. Elas se encantam os livros, principalmente com relação às produções recentes de histórias e mitos na língua Akwen, escritos pelos próprios professores e lideranças Xerente. Essas produções estão inseridas na sala de aula e fazem parte do processo de formação de leitores.
Na 2ª fase do ensino fundamental são cobradas dos alunos a leitura e a escrita escolarizada. Como estes têm planos de prosseguirem os estudos, de certa maneira isso os estimula o envolvimento no projeto. 

Aluna da escola indígena Waikarnãse em momento de produção textual. Foto: Arquivo do Projeto

Por isso, acreditamos que esse projeto na escola indígena pode colaborar no desenvolvimento dessas competências, principalmente com as crianças do 4º e 5º anos, os quais são mais exigidos quanto a leitura, a compreensão e interpretação de textos nos anos seguintes. Nesse caso é necessário articular metodologias e técnicas de leitura, partindo da experiência e expectativa de mundo das crianças indígenas, envolvendo diferentes gêneros literários contextualizados, textos verbais e não verbais produzidos por eles próprios, pois a competência linguística e a prática discursiva se constroem produzindo e lendo textos significativos.
Nessa perspectiva inicialmente fizemos um diagnóstico para saber o nível de leitura e de escrita que se encontram os alunos da escola para assim, selecionarmos e confeccionarmos livros e histórias correspondentes a cada nível, sendo estimulados a potencializá-los gradativamente. Pretendemos, com isso, desenvolver uma prática que favoreça a reflexão crítica e a lógica do pensamento sistêmico das crianças, estabelecendo relações com as atividades culturais, os mitos, as histórias e crenças da cosmologia Xerente.

Leitura e contação de histórias com crianças Xerente. Foto: Arquivo do Projeto

Para melhor dinamizar o trabalho, atendemos os alunos em horário contrário ao da aula. Os alunos do turno vespertino participam do turno matutino do Cofo de Leitura e os alunos da manhã, participam do no período vespertino. Há momentos em que se envolvem todos os alunos daquele turno, como também, momentos com atividades específicas aos alunos. 
O trabalho consta da estimulada a oralidade com contação de histórias dos antepassados pelos pais e anciãos da comunidade. Algumas dessas histórias serão gravadas e transcritas na língua materna, o que vai depender da disponibilidade de tempo de algum professor para escrever em Akwen. Com isso, pretendemos manter a tradição de sentar-se nos terreiros para ouvir e contar histórias como acontecia até alguns anos, antes da chegada da televisão e demais tecnologias na aldeia, como lembra um professor. 
Esperamos que as crianças da escola Waikarnãse, na aldeia Salto, envolvidas nesse projeto sejam despertadas para o prazer da leitura e da escrita, significando as histórias tradicionais e desenvolvendo competências que levem a mudanças sociais e intelectuais no processo de ensino e aprendizagem.

(En)Cena - Como têm sido o contato entre vocês? A escola recebeu bem o projeto e as práticas dele? Há alguma resistência?
Maria Aparecida - A minha relação com o diretor que é também cacique da aldeia e com os professores é boa, respeitosa. Com eles tenho aprendido muito. Inclusive a compreender e respeitar o tempo deles.   Enquanto na nossa sociedade capitalista, a correria é desenfreada, na sociedade Akwe o tempo é vivenciado com qualidade, o suficiente para manter as relações comunitárias entre os clãs.

Troca de experiências entre alunos da escolaWaikarnãse. Foto: Arquivo do Projeto

Crianças Xerente durante atividade do projeto. Foto: Arquivo do Projeto

Alunos produzindo textos e ilustrações. Foto: Arquivo do Projeto

(En)Cena - Qual é a reação das crianças da escola Waikarnãse durante os encontros? Elas gostam das atividades do Cofo?
Maria Aparecida - As crianças Xerente são extremamente curiosas. Quando o carro do Cofo de Leitura chega à aldeia, elas saem correndo, carregando os irmãos menores.  É aquela correria. Às vezes nem esperam organizar o cofo e o material do projeto.  Elas pegam aleatoriamente os livros. E passam rapidamente as folhas, logo trocam e se deixar, passa todos os livros e gibis. Com jeito e ajuda de um professor que fala na língua, as crianças se acalmam e organizamos o trabalho que sempre inicia com uma leitura de história por professor ou ancião. Depois é que iniciamos com a leitura de contos, histórias, mitos. Ao final as crianças espontaneamente recontam a história do seu jeito.

Chegada da equipe do projeto Cofo à escola indígena. Foto: Arquivo do Projeto

Alunos participando das atividades de leitura e produção de texto. Foto: Arquivo do Projeto

Crianças lendo durante momento do projeto. Foto: Arquivo do Projeto

(En)Cena - Por causa do projeto Cofo de Leitura e Escrita, o povo da Aldeia Salto vive novidades e novas práticas de leitura e escrita. Você acredita que esse projeto é também uma maneira de reforçar as tradições deste povo?
Maria Aparecida - Esse é um dos objetivos do Cofo: envolver a comunidade, e estamos trabalhando para que isso ocorra. Para tanto, foram distribuídos livros para as crianças lerem em casa com a família. O livro foi colocado em uma bolsa reciclada. Ela assinou uma ficha de locação do livro. O intuito é a criança ter esse contato individual e familiar por meio do livro. Assim conhecerá diferentes gêneros literários. E, posteriormente essa prática ajudará a crianças descobrir o gênero predileto é mais atrativo para sua leitura pessoal. No próximo encontro cada criança fará um comentário do livro que levou para casa. Vamos ver como será esse processo!

Projeto Cofo da Leitura e Escrita. Foto: Arquivo do Projeto

Crianças que participam do Cofo. Foto: Arquivo do Projeto

Fonte: http://ulbra-to.br/noticia/2014/05/26/Cofo-da-leitura-e-escrita-na-escola-indigena

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Honrando esteiras e porcos

Pílulas Diárias - 28/05/2014 - Sérgio Domingues

No momento em que nossos indígenas sofrem terríveis ataques a seus direitos, seria bom lembrar um livro chamado “O Papalagui”, de 1920. Trata-se da tradução feita pelo alemão Erich Scheurmann dos pensamentos de Tuiávii, chefe da comunidade da ilha de Upolu, em Samoa, na Polinésia.

“Papalagui” em samoano quer dizer “homem branco” ou “europeu”. Tuiávii admira os prodígios de que são capazes os brancos. Mas também enxerga neles “loucos furiosos”. “Eles se matam”, diz ele. “O sangue, o pavor, a destruição reinam”.

Em um de seus comentários mais interessantes, o líder samoano diz:

A palmeira deixa cair as folhas e frutos que estão maduros. Mas o Papalagui vive como se a palmeira quisesse retê-los. "São meus! Não os tereis! Jamais deles comereis!" Mas como faria então a palmeira para dar novos frutos? A palmeira é muito mais sábia do que o Papalagui.

Também entre nós existem muitos que possuem mais do que outros. É certo também que honramos o nosso chefe que tem muitas esteiras, muitos porcos, mas é só a ele que honramos, e não às esteiras e aos porcos. Estas coisas fomos nós mesmos que lhe demos de presente, como alofa [retribuição], para mostrar-lhe o nosso contentamento, para louvar a sua grande coragem, a sua grande inteligência. Mas o Papalagui o que honra são as esteiras e os porcos em quantidade que seu irmão possui; pouco lhe importa sua coragem ou sua inteligência. O irmão que não tem esteiras nem porcos, poucas honras recebe, ou não recebe honra alguma.

Somos assim. Desonramos pessoas e sua dignidade. Honramos esteiras vermelhas por onde desfilam porcos engravatados.

Fonte: Enviado por e-mail ao Grupo da RCPT. 

Carta Aberta da Comissão Nacional de Educação Escolar Indígena sobre os TEEs

Carta Aberta da Comissão Nacional de Educação Escolar Indígena sobre a implementação dos Territórios Etnoeducacionais

A Comissão Nacional de Educação Escolar Indígena (CNEEI), reunida em sua 1ª reunião ordinária, nos dias 27 e 28 de maio de 2014, tendo como pauta principal a avaliação dos Territórios Etnoeducacionais, no marco dos 5 anos de publicação do Decreto 6861/2009 que institui os TEEs para a gestão da educação escolar indígena, constata que há previsão de 41 TEEs em diferentes etapas do processo de implementação, sendo que apenas 60% (24 TEEs) já estão pactuados. Tendo sido os primeiros TEEs pactuados em 2009, a CNEEI reconhece que já há experiência suficiente para uma avaliação da operacionalização das ações previstas no Decreto 6861/2009, para a proposição de encaminhamentos para a efetivação deste novo modelo de organização da educação escolar indígena e para a superação dos problemas e dificuldades estruturais diagnosticadas, conforme apresentado a seguir.

Considerando que:
O modelo dos Territórios Etnoeducacionais trouxe a esperança de um novo desenho para a educação escolar indígena com respeito às diferenças culturais, históricas e sociais destas populações;
Os TEEs representam um instrumento inovador para a gestão da educação escolar indígena, que pode constituir um avanço frente aos impasses criados pelo Pacto Federativo na oferta da educação escolar indígena;
Os TEEs representam a possibilidade de organizar a educação escolar indígena a partir da articulação dos povos, sua territorialidade, rompendo com os limites políticos administrativos dos Estados e Municípios;
Os TEEs representam uma instância de controle social, garantindo espaços para a participação indígena na tomada de decisões sobre a política e implementação da educação escolar indígena;
A instituição de uma Comissão Gestora em cada TEE  e apoio para a criação e/ou fortalecimento das instâncias já criadas no âmbito dos territórios possibilita o fortalecimento do controle social sobre a Política Nacional de Educação Escolar Indígena;
Os TEEs permitem o fortalecimento do Regime de Colaboração entre os atores no campo da educação escolar indígena, com ações partilhadas e pactuadas entre diferentes  instituições e povos indígenas;
O processo de implantação dos TEEs produziu dados e evidenciou diversos problemas enfrentados pelas comunidades indígenas para terem uma educação de qualidade em seus territórios.

Avaliando que:
Os TEEs não se tornaram unidades executoras, mantendo as deficiências de implementação e baixa execução das ações do PAR destinadas às comunidades indígenas;
O MEC não se estruturou administrativamente para exercer o papel de coordenador dos TEEs tal como dispõe o Decreto 6.861/2009, não contando com equipe técnica suficiente para os desafios colocados pela nova política que prevê ações de planejamento, acompanhamento e avaliação dos territórios;
A contratação de consultores não é a resposta administrativa adequada para a implantação e implementação dos TEEs, uma vez que estes não podem dar respostas institucionais aos problemas verificados;
Há dificuldades e morosidade no processo de operacionalização do decreto 6.861 com vários territórios ainda não definidos ou pactuados, inexistindo agenda para conclusão da implementação do decreto em todo o país;
Não há informações disponibilizadas qualitativas e quantitativas sobre o funcionamento dos TEEs pactuados, seus êxitos e dificuldades.
O instrumento de pactuação dos territórios não garante o compromisso dos gestores federais, estaduais e municipais, que continuam a atuar de forma desarticulada, gerando ações desencontradas e desconexas no mesmo território.

Recomendamos que:
O MEC estabeleça uma agenda para o processo de consulta, definição e pactuação de todos os TEEs, estendendo a consulta à totalidade dos povos indígenas;
O MEC crie uma estrutura administrativa com quadros permanentes para a gestão e coordenação dos TEEs, com previsão de cargos e realização de concurso público para CGEEI/MEC e com a criação da Diretoria de Educação Escolar Indígena, vinculada a SECADI;
O MEC estude e proponha um instrumento para a autonomia de gestão administrativa e financeira de cada território, por meio da constituição de Unidade Gestora própria para cada território pactuado, superando o atual modelo de financiamento restrito ao PAR;
O MEC crie uma linha de financiamento, via edital do FNDE, com recursos para o processo de implantação e funcionamento dos TEEs voltada para os instituições de ensino superior públicas e organizações da sociedade civil, indígenas e indigenistas;
O MEC constitua a Comissão Gestora Nacional dos TEES, conforme a Resolução 05/2012 CNE-CEB.

Brasília, 28 de maio de 2014.

Membros da Comissão Nacional de Educação Escolar Indígena



quarta-feira, 28 de maio de 2014

Seminário Internacional Acolhendo as Línguas Africanas


 
 
Discutir sobre a influencia da África no Brasil é reconhecer a necessidade de se refletir sobre história e os mitos que foram
estabelecidos em torno do nosso descobrimento e sobre conceitos cristalizados de raça, etnia, nação e nacionalismo.
O estudo dessas questões nos mostra a urgência de se recontar a história e dar voz aos cantos silenciados.

A realização do evento visa despertar na comunidade acadêmica brasileira o interesse pelos estudos das línguas e culturas
africanas mostrando a sua importância para a formação e sentido do Brasil.

APRESENTAÇÃO

A realização do evento visa despertar na comunidade acadêmica brasileira o interesse pelos estudos das línguas e culturas africanas mostrando a sua importância para a formação e sentido do Brasil.

O continente africano, esquecido e marginalizado por muitos, vem provocando o interesse de 
 inúmeros pesquisadores contemporâneos, sendo tomado como base para se estabelecer profundas  discussões sobre a diversidade étnica e o modo como as hierarquias de base étnico-raciais são reiteradas. Discutir sobre a influencia da África no Brasil é reconhecer a necessidade de se refletir sobre história e os mitos que foram estabelecidos em torno do nosso descobrimento  e sobre conceitos cristalizados de raça, etnia, nação e nacionalismo. O estudo dessas questões nos mostra a urgência de se recontar a história e dar voz aos cantos silenciados.

Conhecer a África é abrir os olhos a matrizes que interferem no nosso modo de ser e estar no 
mundo. Frequentemente associadas às fronteiras do preconceito, as culturas africanas foram relegadas, historicamente, a uma imagem pejorativa e destrutiva do escravo, sempre considerado inferior do ponto de vista cultural e,consequentemente, do ponto de vista social e humano. Essa visão ideológica e equivocada deu margem à emergência de estereótipos sobre  os negros através de um clichê aviltado e simplificado. Entretanto,hoje vários estudos são desenvolvidos voltando-se para a reversão dos estereótipos e a produção de identidades  minoritárias como construção sociais complexas e em continua transformação.

É preciso entender a sociedade brasileira a partir das diferenças e ler a historia não como 
uma totalidade fechada para que se possa tirar da clandestinidade muitos atos que foram camuflados pelo pensamento dominante europeu, pois a cultura, sejam quais foram as  características ideológicas ou idealistas das suas manifestações, é uma elemento essencial da História de um povo.( Amilcar Cabral).

Nesse sentido, o evento tem como objetivos:
- Discutir sobre a influencia da África no Brasil; através das Imagens e Linguagens.
- Discutir a importância desses estudos para o entendimento da formação e sentido do 

Brasil.
- Discutir a importância cultural entre a UNEB e diversos centros culturais e de pesquisa 

em africanias.
- Incentivar o interesse de estudantes e professores para participar de missões culturais

 em países africanos e ocupar postos de leitorados brasileiros já existentes em varias 
universidade africanas.

Programação e Inscrições:
http://www.siala.uneb.br/

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Calabouço 1968 - um tiro no coração do Brasil

O filme
 
O “Calabouço”, restaurante central dos estudantes, foi o cenário onde se desenrola o estopim das grandes manifestações estudantis que abalaram a ditadura instalada em abril de 1964 no Brasil.
 
Na tarde do dia 28 de março, o local estava repleto de estudantes, na maioria secundaristas, que reivindicavam a conclusão das obras do restaurante e melhorias na alimentação, quando foram reprimidos com violência pela Polícia Militar. Um tiro dado à queima roupa matou o jovem estudante Edson Luís, cujo corpo foi velado na antiga Assembleia Legislativa, que funcionava onde hoje é a atual Câmara de Vereadores, na Cinelândia, no centro do Rio.
 
Com cerca de 1 hora de duração, o documentário conta com depoimentos de personalidades que despontaram na época, como então estudante Vladimir Palmeira, que era presidente da UME (União Metropolitana dos Estudantes), o músico e compositor Sérgio Ricardo, autor da música “Calabouço”, entre tantas outras canções de protesto, o fotógrafo Evandro Teixeira, do Jornal do Brasil e a então estudante da Escola Nacional de Belas Artes e hoje jornalista Dulce Tupy, entre outros, o documentário resgata a memória do movimento estudantil, no momento em que detonou o processo de manifestações de massa que desembocaram na famosa Passeata dos Cem Mil.
 
FICHA TÉCNICA:
 
Calabouço 1968 - um tiro no coração do Brasil
Duração: 58min
Diretor: Carlos Pronzato
 
Exibição: Calabouço 1968 - um tiro no coração do Brasil, seguida de roda de debates com a presença do documentarista Carlos Pronzato. Entrada gratuita.
Data: 24/05
Horário: 17h
Local: Av. Brasil, 248, sala 1102. Santa Efigênia. 
Mais informações: http://betocineclube.blogspot.com.br / 8899-0201
 
 
Fonte: Via e-mail

VALDECK ALMEIDA DE JESUS ENTREVISTA O CACIQUE JUVENAL PAYAYÁ


JUVENAL PAYAYA É ENTREVISTADO POR VALDECK ALMEIDA DE JESUS

Juvenal Teodoro Payayá não sabe bem a cidade onde nasceu. É que as constantes emancipações dos distritos, gerando divisões políticas dos territórios torna o registro de nascimento dele em uma mentira, segundo palavras do próprio escritor. E ele explica: “veja: o “Maracaiá” aldeia quando nasci, era distrito do Morro do Chapéu, depois Miguel Calmon, depois Várzea Nova; Cabeceira do Rio onde fui concebido e criado, hoje é Utinga, mas, já foi Morro do Chapéu, e assim por diante. Portanto, resolvi simplificar as coisas e digo para todos que Sou chapadeiro, sou um cidadão nascido na Chapada Diamantina e pronto!
 
A primeira infância foi numa aldeia isolada, aos 12 anos, na maior comoção migratória interna do país, quando Payayá foi parar no Sul Maravilha – rumo ao sul. Aos 14 anos se tornou operário da construção civil, tecelão e metalúrgico. Depois de um concurso público [tipo reda] foi ser entregador de conta de água. Conheceu São Paulo mais que taxista e também muita gente famosa: Assis Chatobreand, Chacrinha, Mazzaropi, Hilário Torloni, vice governador de São Paulo e a família Poletto, a quem Juvenal diz dever amizade até hoje, devido a incentivo aos estudos. Entrou no supletivo Santa Inez, que era a sensação da época, onde também estudavam Boris Casoi, prof. Yromi Nakata, o ex deputado Paulo Kobayashe, o Pastor depois deputado Edgard Martins. Através de muito esforço, as orações de dona Ana e a sorte, em prazo curtíssimo terminava o “madureza” de primeiro e segundo graus. Prestou vestibular e passou ao mesmo tempo, na FMU para Direito e História na USP, advinha qual escolheu?
 
De operário da construção a operário do livro. Foi o primeiro despertar: não só os vendia, lia-os todos. Trabalhou na Theor,  Editorial São Paulo, Lello, enciclopédia Barsa, Revista Pedagógica Brasileira e, finalmente, de 1974 até 1993, na Editoria Ática, através da qual voltou para a Bahia, ajudando a estruturar a Scipione.
 
VALDECK: Quando e onde nasceu?
JUVENAL PAYAYÁ: Nasci no início do outono de 1945, dia 4 do mês 4,  pelas mãos de Soledade, parteira de fama do sertão, madrugada de uma quinta-feira chuvosa. O "Maracaiá", gato pintado em tupi, era uma aldeia isolada, hoje na confusão dos municípios não sei a qual cidade ela pertence, por isso limito-me a dizer que sou cidadão da Capada Diamantina. 94 dias depois desta data, acabava a Segunda Guerra Mundial e, para meu pai, eu vim trazer a paz.
 
VALDECK: Já conhece o restante do Brasil? E outros países?
JUVENAL PAYAYÁ: Sim, Bahia e Sergipe conheço praticamente todas as cidades, Minas, São Paulo e Paraná conheci muito bem seu interior. Tenho vontade de conhecer a grande selva amazônica, incluindo parte das Américas: Venezuela, Peru, ir a Machu Picchu, ver de perto o legado das civilizações Inca, Maia, o México. Claro que vislumbro conhecer a ilha de Ítaca, reino do grande Odisseu, ir a Espanha, especialmente Palos - de onde partiu Colombo - buscar a inspiração para melhor contar em versos o massacre dos ameríndios.
 
VALDECK: quando começou a escrever e onde?
JUVENAL PAYAYÁ: Meu primeiro artigo foi publicado em um jornal de Santo André-SP; era uma crítica mordaz à ditadura, o texto era ingênuo, panfletário, apesar da sinceridade não tinha qualidades, depois mandei outros que o jornal não publicou; escrevi para outros jornais nanicos da época: de Jacobina e de Minas, nunca guardei um recorte e, finalmente, na revista ArtPoesia. Meu primeiro livro foi os “Tupinikim – versos de índio”, os 1000 exemplares esgotaram em menos de dois anos, daí em diante lancei mais seis outros livros, em média de 400 exemplares por edição, menos “O Filho da Ditadura”, edição de 1000 exemplares, os outros estão esgotados.
 
VALDECK: Você escreve ficção ou sobre a realidade? Suas obras são mais poesias ou prosa? O que mais você gosta de escrever? Quais os temas?
JUVENAL PAYAYÁ: Se tiver de me considerar escritor, serei um escritor indígena, escrevo minhas inquietações em versos e prosa. Meu poema tem um tema: é a questão indígena. Além dos livros publicados, escrevi alguns ensaios e próximo de 400 poemas. Fora os intimistas, feito para a mulher amada, os demais são sobre a terra, o arco, a flecha, Tupã, a Chapada Diamantina; dedico muitos poemas aos opressores do povo indígena. O último livro “O Filho da Ditadura”, um dos filhos da ditadura é também um indígena.
 
VALDECK: Qual o compromisso que você tem com o leitor, ou você não pensa em quem vai ler seus textos quando está escrevendo?
JUVENAL PAYAYÁ: Claro que eu penso nas pessoas. Acho que desprezar o leitor é escrever para ninguém, o nariz em pé pode encharcar com a chuva. O que não faço é correr atrás de temas que agradem ao leitor, isso é tarefa para profissionais, jornalistas, novelistas e escritores de paradidáticos.
 
VALDECK: O que mais gosta de escrever?
JUVENAL PAYAYÁ: Gosto de escrever romances, porém, sinto no romance uma carga pesada, depende de tempo, planejamento, suporte teórico para as críticas, a correção, pesquisa, volumosa leitura e fôlego de nadador. Estou com um romance escrito há oito anos e não tenho fôlego para retomar seu enredo, ou seja, rever o papel de personagens por personagem, refazer as falas, os ambientes. No romance mudar a cor dos olhos de um personagem pode comprometer a sequência e episódios distribuídos por dezenas ou centenas de páginas. Não que escrever poema seja simples, acho o poema coisa do espírito, por isso independe da vontade do poeta, mesmo assim temo dizer que tenho algum poema pronto.
 
VALDECK: Como nascem seus textos? De onde vem a inspiração? E você escreve em qualquer hora, em qualquer lugar ou tem um ritual, um ambiente?
JUVENAL PAYAYÁ: Às vezes é no impulso, acordo pela madrugada para completar o texto e às vezes durmo sobre o texto. Gosto de silêncio, a calma da janela aberta contribui para a sensação de liberdade, me ajuda pensar.
 
VALDECK: Qual a obra predileta de sua autoria? Você lembra um trecho?
JUVENAL PAYAYÁ: Não gosto de tudo o que produzi, como acredito na ancestralidade, credito as coisas boas aos ancestrais, gosto do poema Temática: 

 
TEMÁTICA
Meu poema não vive
Em mundo puro e acabado,
Vedado a cimento, caiado,
Prefere a junta entre seixos;
 
Meu poema passa frio e fome
Come, é persistente;
Meu poema não acaba
Com o nascer do dia;
 
Antes do ponto final,
Estendo fundo o olhar
Para ver mais um poema
Enxaguando em janelas
 
E diante da ambiguidade
Delas, brota o verso na razão
Direta e pura como flecha
Que atinge o coração,
 
De algumas janelas acenam,
Outras acusam o poema
E se fecham na escuridão.
Meu poema tem um tema!
 
VALDECK: Seus textos são escritos com facilidade ou você demora muito produzindo, reescrevendo?
JUVENAL PAYAYÁ: Mudei muito, antes produzia como pão no forno, agora reescrevo até a exaustão, acabou a pressa, devo em parte a alguns leitores, é compromisso com o leitor.
 
VALDECK: Qual foi a obra que demorou mais tempo a escrever? Por quê?
JUVENAL PAYAYÁ: “Negócio na Periferia” é meu primeiro “longa folhagem”, 220 páginas. Em dois anos de atividade intensa, eu ia para as ruas construir os personagens, aquela coisa do empresário buscar na periferia o servente, seu mestre de obra e depois comer a filha dele, a índia urbana se prostituindo, isso me doía na alma, sabe; a trama e a ficção colidindo na minha cara, se completam; em o “Filho da Ditadura” trabalho sobre um tempo que convivi; estive na luta direta, entre pesquisas, imaginação, invencionice e muito quebra cabeça, lá se foram mais dois anos; diferente, no entanto é “A Prostituta de Alexandria” ou “DQVPM”, persigo o endereço do prostíbulo palaciano, a podridão nos bastidores dos palácios, a corrupção. Para completar o livro necessito de informações secretas, e precisava estar infiltrado no meio; este livro está pronto, mas  a história não acabou, há oito anos que trabalho nele.
 
VALDECK: Concluiu a faculdade? Pretende seguir carreira na literatura?
JUVENAL PAYAYÁ: Minha vida acadêmica foi penosa e tumultuada. Analfabeto até os 17 anos, fiz primário e madureza, aos 23 era estudante de História da USP, as responsabilidades pela vida me fizeram abandonar a USP, mas não a história, me reencontrei na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), completando Ciência Econômicas, depois na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), em educação, depois duas Pós e parei aí.
 
VALDECK: Qual o escritor ou artista que mais admira e que tenha servido como fonte de inspiração ou motivação para seu trabalho?
JUVENAL PAYAYÁ: Tenho dificuldades para enumerá-los. Gosto dos clássicos, Homero, Ovídio, a Bíblia, Camões, gosto de Kafka e Walter Benjamim, leio Marx e Marilena Chauí, Jorge Amado e Adonias, Murilo Mendes, Graciliano, Neruda, Fernando Sabino, detesto a apologia colonialista do Fernando Pessoa, sou amante da poesia baiana contemporânea, gostaria de ter tempo para frequentar as rodas e ler mais esta coisa boa. 
 
VALDECK: O que você acha imprescindível para um autor escrever bem?
JUVENAL PAYAYÁ: Ler, ler, ler e depois planejamento, e escrever, reescrever até cansar. Se eu não tivesse o planejamento e o volume de leitura – leio todos os dias - acompanhado da teimosia, não escreveria um bilhete, minha letra é ilegível, uso óculos, porém sou determinado, tenho método para ler. Quando pego um livro, primeiro conto as palavras, sei calcular o tempo que vou precisar para ler e persigo -, precisei de 39 horas para ler Ulisses, de Joice -, obedecendo ao plano; se nada me interromper, cumpro a tarefa no tempo previsto.
 
VALDECK: Você usa o nome verdadeiro nos textos, não gostaria de usar um pseudônimo?
JUVENAL PAYAYÁ: Juvenal é meu nome de batismo, Payayá de meu povo. Quando descobri que a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) promoveu a extinção dos Payayá adotei o nome, incorporei na alma, ou seja, Payayá é mais que um nome, muito além do pseudônimo, é o nome de um povo resistente, o povo indígena Payayá.
 
VALDECK: Como foi a tua infância?
JUVENAL PAYAYÁ: Nasci no coração da Chapada Diamantina, meu pai era agricultor, aprendeu ler sozinho, e lia obstinadamente com uma lasca de candeia embebida em cera de abelha, muita luta pela vida, mesmo assim fui feliz até os onze anos, quando a ilusão do sul-maravilha me arrematou de meu chão.
 
VALDECK: Você é jovem, gasta mais tempo com diversão ou reserva um tempo para o trabalho artístico?
JUVENAL PAYAYÁ: Desde a juventude fui um cara engajando, tive a vida dividida entre o trabalho intenso, a família, as questões políticas, as questões sociais e a literatura, porém, gosto de diversão, gosto de dançar e viajar, uma roda de Toré, um bom papo ao redor de uma mesa, odeio a fome, “tô” sempre pronto pra matar uma.
 
VALDECK: Tem um texto que te deu muito prazer ao ver publicado? Quando foi e onde?
JUVENAL PAYAYÁ: No lançamento de “Os Tupinikim” fiquei com cara de mãe parida, muitas alegrias. Li com satisfação o “Poemas para os Clássicos”, traduzido para o italiano; o poema “Seios”, declamado na Cantina da Lua; a comunidade brasileira na Alemanha publicou “Para Além do Borjador”, um texto significativo. A vaidade é pior que o câncer, contamina!
 
VALDECK: Você tem outra atividade, além de escritor?
JUVENAL PAYAYÁ: Sou professor, lecionei matemática, filosofia, sociologia, economia e pesquisa operacional. Para um índio da Cabeceira do Rio é uma prova que ao índio basta primeiro garantir a unidade com auto sustentabilidade do seu povo e acesso às oportunidades.
 
VALDECK: Você se preocupa em passar alguma mensagem através dos textos que cria? Qual?
JUVENAL PAYAYÁ: O preconceito é um fel contra o povo indígena, é a morte, a pior lástima. O pecado original. A ganância. Que diríamos de um neto que rejeita seus avós? Pois é esta a sociedade em que vivemos! Digo desta sociedade que se apossou das terras alheias, as terras das Américas, finge que nada sabe sobre os crimes hediondos, por motivos torpes praticados por seus antepassados. Meus escritos têm objetivos de relatar as dores que estão dentro do coração dos vencidos.
 
VALDECK: Qual sua Religião?
JUVENAL PAYAYÁ: Pelos relatos bíblicos Cristo sofreu o preconceito de um povo - que se dizia povo de Deus – foi desprezado até a morte horrenda, mas sua imagem vive. Com este acreditar que luto. É a mesma arma preconceituosa que aplicam contra os índios, o ódio, a ira, a destruição, a falsidade, a violência, tudo em nome de Deus, ou do diabo!
Gosto da mensagem do cristo através da natureza... talvez Xamã.
 
VALDECK: Quais seus planos como escritor?
JUVENAL PAYAYÁ: Ser reconhecido em vida como escritor indígena, aquele que se dedica à causa de um povo dado como exterminado.
 
(*) Valdeck Almeida de Jesus é escritor, poeta e editor, jornalista formado pela Faculdade da Cidade do Salvador. Autor do livro “Memorial do Inferno: A Saga da Família Almeida no Jardim do Éden”, já traduzido para o inglês. Seus trabalhos são divulgados no site www.galinhapulando.com
Valdeck Almeida de Jesus
Enviado por Valdeck Almeida de Jesus em 27/12/2011
Alterado em 27/12/2011