sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Relatos sobre a presença e resistência dos Xatanawa e as ameaças contra esse povo

Amazônia

Contato dos Xatanawa põe fim a resistência centenária

O descaso e a incompetência do Brasil e do Peru colocaram populações em "isolamento voluntário". Os sete indígenas que apareceram no Acre são sobreviventes
por Felipe Milanez e Glenn Shepard — publicado 07/08/2014 18:57, última modificação 08/08/2014 11:27
Reprodução
Índios Xatanawa
Imagem de dois dos sete indígenas que fizeram contato
Por Felipe Milanez e Glenn Shepard
Eles são jovens. Todos saudáveis. Corpos esbeltos, cabelos bem cortados, algumas leves pinturas no rosto. Carregam arcos e flechas bem feitas, bem apontadas, com as penas impecavelmente cortadas. Portam um cinto de casca de envira, que utilizam para segurar um machado, e amarram o pênis nesse mesmo cinto. Imitam animais da floresta com perfeição e cantam belas melodias características das sociedades falantes da língua Pano, como as músicas dos Kaxinawa e dos Yawanawa que se pode escutar em CDs. Por trás dessa bela aparição de jovens indígenas que tomaram coragem e decidiram passar a interagir com a violenta sociedade que os cerca, estão terríveis histórias de massacres – um provavelmente recente, e suspeita-se perpetrado por um narcotraficante. A história do “contato” dos Xatanawa é uma extraordinária história de resistência.
Vídeos e fotografias sobre a chegada de um povo tido como em “isolamento voluntário” em uma aldeia do povo Ashaninka, no Acre, têm provocado comoção nas redes sociais, questionamentos, comentários racistas, e ganharam atenção da imprensa nacional e internacional. Dois vídeos divulgados com exclusividade no blog do jornalista Altino Machado romperam com o silêncio da Funai, muda sobre os riscos do contato e apenas expressando-se em notas à imprensa cheias de mistérios. A notícia saiu desde o Jornal Nacional ao britânico Guardian. Tem merecido manchetes de portais sensacionalistas e até de revistas científicas como a Science. Quase sempre, a história dos massacres e da resistência dessa população é deixada em um segundo plano para dar espaço ao sensacionalismo, exotismo e colonialismo da relação com essa nação indígena.
Ideias tais como “emergiram da floresta” ou “saíram do isolamento”, “um grupo de índios isolados da civilização” que estão “vindo até nós” contribuem muito mais para esconder o real significado desse processo de aproximação e interação em curso. Nas caixas de comentários há sempre a surpresa pelo machado, terçado, a espingarda, ou a “carteira do Corinthians” portada pelos indígenas. “Será que a Funai vai, também, demarcar o Itaquerão?”
Essa perspectiva etnocêntrica contribui para se deixar de lado a responsabilidade dos Estados brasileiro e peruano em protegerem e dar garantias para que essa população possa continuar vivendo livre – e se quiser, mesmo contra o Estado.
Fronteiras de sangue
As câmeras que mostram os jovens indígenas poderiam também apontar para o outro lado dessa fronteira: o tráfico de cocaína do Peru, maior produtor mundial, e suspeito de ter cometido um massacre contra essa população; para a indústria madeireira peruana, ilegal e predatória, que abastece os Estados Unidos de mogno, também suspeita de violência e massacres por ali; para a indústria madeireira brasileira que falsifica documentos, mesmo no Acre, e está explorando o entorno das terras indígenas, e é uma das campeãs de conflitos e mortes; para a exploração de petróleo e ouro, avançada no Peru e em processo de prospecção no lado brasileiro, que contamina vastas áreas de floresta; para as obras de infraestrutura na América Latina, pelo IIRSA, e também o PAC, que impactam e destroem ambientes e vidas humanas que não são levadas em contas nas planilhas.
Foi somente após o contato desse grupo que fala língua da família Pano, e que a princípio se autodenominam Xatanawa, segundo identificou um dos intérpretes, é que o governo brasileiro decidiu liberar recursos para a construção e manutenção de quatro bases de fiscalização da Frente de Proteção Etnoambiental Envira. Foi feita a promessa de 5 milhões de reais e mais recursos de emergência para que não ocorram mortes decorrentes do contato. Essa população passa a viver uma situação de vulnerabilidade epidemiológica em razão de baixa imunidade a diversas doenças. Tempos atrás, metade iria morrer nos próximos meses. Será que agora é possível fazer diferente? Algumas experiências como o contato com os Korubo, em 1996, no Vale do Javari, e com os Arara da Cachoeira Seca do Iriri, em 1987, mostram que é possível, se houver uma equipe organizada, evitar epidemias e mortes.
Acontece que, para se construir equipe e estrutura, é necessária a chamada “vontade política”: o governo cumprir a lei e destinar recursos. As quatro bases de fiscalização que foram agora prometidas já eram uma demanda antiga do sertanista José Carlos Meirelles e passaram a ser também de seus jovens sucessores na Frente de Proteção Etnoambiental Envira, da Coordenação Geral de Índios Isolados, no Acre, como o dedicado indigenista Guilherme Daltro Siviero.
Há anos, Meirelles e outros indigenistas, como Terri de Aquino, alertam sobre a possibilidade de um eventual contato nessa área com um povo em isolamento voluntário. E alertam para a chance de um provável desastre humanitário. Isso nunca serviu, no entanto, para acordar os burocratas da chefia da Funai, do Ministério da Justiça e do Ministério do Planejamento. Mais fácil deixar sangrar em campo os dedicados funcionários, e depois culpá-los por “despreparo”, como alega reportagem recente publicada no jornal britânico Guardian. Como o próprio Meirelles desabafou em entrevista concedida à Revista Terra na semana passada: “Ou faz, dando estrutura, ou o estado brasileiro diz: tudo bem, mais um genocídio no meu currículo.”
Em 2007, já com suspeita de que um contato eventual poderia ocorrer com a vinda dos indígenas, Meirelles alertou em entrevista para Felipe Milanez sobre os riscos que ele temia: “Não temos condições de prover saúde e dar assistência, seria um massacre.” O risco agora é de um massacre epidêmico após essa população ter relatado que sofreu um massacre por um grupo fortemente armado.
Esses jovens Xatanawa que habitam as cabeceiras do Envira são, portanto, conhecidos há tempos pelo Estado brasileiro. Meirelles montou a primeira base de fiscalização na confluência do rio Envira com o igarapé Xinane em 1988. Ele já havia mapeado a região e encontrou esse ponto com equidistância do território de diferentes povos nessa situação de isolamento, em uma posição intermediária com as comunidades Ashaninka e também bem localizada para controlar a subida do rio: a partir dali, subindo as águas do Envira, estaria vigiado o acesso pela água.
A proteção do lado brasileiro da fronteira passou a ser eficiente. E, pelo lado peruano, passou a piorar após os anos 2000, quando Meirelles começou a perceber os resíduos da exploração madeireira no lado de lá, como tambores de combustíveis, sacos plásticos e pranchas de mogno descendo o rio. Se vinham todas essas tralhas de acampamentos ilegais, por que não poderia descer o rio também, por exemplo, uma carteira do Corinthians ou um machado boiando cravado numa tora, objetos encontrados com os Xatanawa?
Ameaças e riscos desde o início da década
O sertanista Meirelles e seus colegas na Coordenação de Índios Isolados e Recente Contato passaram a denunciar a situação de ameaça ao indígenas em isolamento na fronteira do Brasil com o Peru, região do Paralelo 10, no início da década. Em 2004, Meirelles foi atacado por um grupo Mashco Piro, levou uma flechada no rosto e quase morreu. Já desconfiava ele que a agressividade dos Mashco poderia estar relacionada com violência contra eles na região. Em 2005, um grupo de indígenas passou em aldeias e nas casas de ribeirinhos para se apropriar de alimentos e ferramentas. Meirelles tentou recursos do governo para repor esses equipamentos e tentar lançar, em sobrevoos, ferramentas às aldeias dos isolados.
As madeiras de sangue, como chamamos a exploração ilegal e predatória de madeiras nativas, cada vez mais penetraram os territórios dessas populações indígenas autônomas. Em 2006 e 2007 foram feitas denúncias internacionais da invasão de madeireiros peruanos no território brasileiro, que atingiam tanto comunidades Ashaninka quanto o território dos isolados. Nessa crise, durante uma reunião interministerial, um diplomata brasileiro falou sobre a necessidade de denunciar o Peru na Organização Mundial do Comércio.
Meirelles costumava dizer a amigos: “cada caixão de mogno nos Estados Unidos deveria vir com uma placa: aqui jaz um índio isolado que foi morto para essa madeira vir até aqui enterrar um americano”.
Na segunda metade da década, com a eminência do contato, e durante processos de reestruturações da Coordenação Geral de Índios Isolados (que passou também a trabalhar com os povos de Recente Contato – CGIIRC) em 2006, que passou a se falar, internamente no ambiente sertanista, da necessidade urgente de se constituir equipes preparadas para o contato. Em reunião interna da coordenação, em 2010, essas equipes foram longamente discutidas: elas deveriam sempre contar com a presença de um tradutor e agentes especializados de saúde.
Assim, há pelo menos uma década a possibilidade de um contato é tida como grande na Funai. Mesmo assim, a sucessão de chefes na pasta, desde Sydney Possuelo, Marcelo dos Santos, Elias Bigio, e hoje, Carlos Travassos, nunca conseguiram aumentar o orçamento e romper os entraves burocráticos interministeriais para o treinamento de equipes.
Desenvolvimentismo e os impactos que não aparecem nas planilhas
O advento do PAC, em 2007, trouxe novas pressões, que foram ampliadas com o PAC 2 em 2010. As Frentes de Proteção Etnoambiental foram duplicadas. Passaram de seis para as atuais 12 e a proteger 30 milhões de hectares. Em 2010, foi feita uma proposta para ampliação do orçamento da CGIIRC para 5 milhões de reais. Não houve resposta do governo. Em 2014 o orçamento foi de 2,3 milhões de reais, e grande parte foi gasto para as operações de desintrusão da Terra Indígena Awá, no Maranhão, onde o povo indígena Awá também vive risco de genocídio. Na hora de realizar as operações no Xinane para salvar os Xatanawa, faltou recurso.
Não é apenas dinheiro que o governo nega para os sertanistas. Faltam recursos, gente e estrutura. E não é apenas com relação às populações em isolamento. Esse é apenas um reflexo exposto da caótica política indigenista do atual governo, violenta de diversas formas contra os povos indígenas. Uma breve leitura no diagnóstico do relatório do Conselho Indigenista Missionário serve para expor o tamanho da tragédia em curso. A política de saúde indígena é uma tragédia geral, e a Funasa – atual Sesai –, desde que foi desmembrada da Funai no início dos anos 1990, nunca formou uma equipe especial para os contatos nem para o contato com os Karubo, no Vale do Javari, em 1996, nem com os Piripkura, em 2007: em ambas as situações os sertanistas da Funai tiveram de se virar como puderam convidando enfermeiros conhecidos e amigos.
Dar condições de trabalho e assumir a proteção aos povos indígenas em isolamento voluntário determinada pelo Estatuto da Funai (Decreto 7778) (“proteger os povos indígenas isolados, assegurando o exercício de sua liberdade, cultura e atividades tradicionais”) é uma regra muito pouco seguida no último século, desde que Rondon fundou o Serviço de Proteção ao Índio. Infelizmente, os vídeos recentemente divulgados mostram funcionários da Funai dedicados, mas sem os planos discutidos pela própria Funai de dispor de equipe de saúde especializada e treinada, junto de equipe de interpretes e sertanistas. Um dos indigenistas usava um corte de cabelo que assustou os índios, sem intérpretes, falam em portunhol, diziam “não” quando isso não significa nada (em Kayapó a palavra “nã” quer dizer “sim”, por exemplo). As equipes foram deslocadas às pressas, com aperto financeiro e estresse. A base Xinane, que poderia prover alimentos como banana, mandioca e frutas, estava abandonada.
A questão é que a história desse contato deve se repetir nos próximos anos em diferentes partes da Amazônia, como com um grupo Korubo isolado, no Vale do Javari, no Amazonas, ou com um grupo Yanomami, em Roraima, ameaçado por garimpos ilegais. Não são situações em que o Estado provoca o contato, como durante o desenvolvimentismo da ditadura, por exemplo, o caso dos Panará, atingidos pela BR 163, ou os Arara, na rota da Transamazônica. Mas é difícil acreditar que, hoje, o Estado brasileiro esteja preparado para dar proteção a essas comunidades que estão sendo vencidas pelas violentas frentes de expansão.
Dentro da CGIIRC há planos de constituição de equipes treinadas e preparadas. Mas é preciso multiplicar por dez o orçamento, segundo estimativa dos sertanistas, facilitar a contratação de mateiros e pessoas treinadas em campo e descontingenciar os gastos para que possam ser aplicados nas situações de urgência e de forma condizente com a necessidade de custos dessas regiões remotas.
O histórico: quem são os Xatanawa, ou Chitonahua, os “isolados do Envira”?
Os sete sobreviventes enfrentaram o medo do contato e visitaram a comunidade Simpatia do povo Ashaninka para pedir comida e materiais. Como não falavam a mesma língua, o encontro foi tenso. Apenas após a chegada de dois intérpretes Jaminawa (ou Yaminahua na grafia peruana) que a comunicação foi estabelecida. A língua que falam é um dialeto do Jaminawa, o que permite fluência na comunicação. Suspeitava-se a partir das fotografias e vestígios materiais da presença, com base em sua localização e adornos corporais, que estes indígenas pertenciam a um grupo falante da língua Pano isolado. Os intérpretes confirmaram essa filiação linguística e sugeriram que eles estão relacionados com o Chitonahua do Peru (escrito ‘Xitonawa’ na ortografia brasileira), porém eles se chamam “Xatanawa”, que significa: “Povo Arara”.
Alguns anos atrás, um pequeno grupo de cerca de 15 Chitonahua, fugindo de conflitos semelhantes com madeireiros, em 1996, refugiou-se ao longo do alto rio Minuya, no Peru. Estavam sendo atacados por madeireiros de mogno: a mencionada indústria madeireira de sangue. Dois jovens do grupo tinham ferimentos provocados por tiros de espingarda. Quase a metade do grupo havia morrido por doenças misteriosas que eles atribuíam a feitiçaria, mas que no entanto incluía gripe, malária e outras doenças contagiosas.
Os Chitonahua por sua vez são muito próximos dos Yora ou Nahua do alto rio Manu e do rio Mishagua, do Peru. Trata-se de um grupo guerreiro e resistente, que ganhou as manchetes internacionais, em 1983, quando atacaram um grupo de fuzileiros navais peruanos que acompanhava o então presidente do país Fernando Belaúnde. A comitiva dirigia-se para as cabeceiras do rio Manu para inaugurar a parte peruana da rodovia Transamazônica. Há uma fotografia famosa que mostra o presidente Belaúnde ao lado de um soldado com uma flecha Nahua no seu pescoço.
Essa resistência Nahua foi, em grande parte, responsável por impedir o que teria sido um projeto de estrada ecologicamente desastroso no coração da primeira e mais famosa área protegida do Peru, o Parque Nacional de Manu. No entanto, com intensa prospecção petroleira no seu território pela Shell Oil, e a recente invasão de madeireiros, os Nahua foram finalmente contatados em 1985. Em dez anos, a população foi reduzida quase pela metade, principalmente devido a doenças introduzidas.
Como os Chitonahua e, antes, os Nahua, o grupo que recentemente apareceu ao longo do rio Envira também contraiu doenças respiratórias e foi necessário tratamento médico de emergência.
Narcotraficante português é o principal suspeito de massacre
Os sete indígenas Xatanawa que vieram até a aldeia Ashaninka no Acre são verdadeiros sobreviventes. Eles detalharam aos intérpretes o crime de genocídio que teria sido cometido contra eles. A suspeita, pelas descrições físicas feita pelos indígenas, é que o massacre teria sido liderado por um narcotraficante português chamado Joaquim Antônio Custódio Fadista, com cerca de 60 e poucos anos.
Fadista organizou a invasão da base Xinane da Funai, em 2011, liderando um grupo fortemente armado. Desde então, a base Xinane foi desativada. Além do risco aos servidores, houve também limites orçamentários e de direitos trabalhistas. Acontece que Fadista foi duas vezes preso dentro do território indígena, em março e em agosto de 2011. Na primeira, pela PF, foi extraditado e retornou à região. Depois, pela polícia civil, foi liberado em seguida. Foi condenado por tráfico pela Justiça do Maranhão e do Ceará, e também em Luxemburgo, e é procurado pela polícia peruana. Impune no tráfico e, a princípio, até então, impune na prática de genocídio que deve ser investigada.
Na época, o sertanista José Carlos Meirelles enviou um e-mail para os “companheiros de luta e família” no qual dizia: “Como todos sabem a nossa base do Xinane foi invadida por um grupo paramilitar peruano, onde foi preso por uma operação da Polícia Federal, um único integrante. O famoso Joaquim Fadista, que já tinha sido pego aqui por nosso pessoal, foi extraditado e voltou. Com um grupo de pessoas cuja quantidade não sabemos.”
Carlos Travassos, coordenador de Índios Isolados na Funai, já suspeitava, na época, da prática de violência por Fadista. Ele havia relatado, em 2011, para este blog:  “Esses caras fizeram correria (como se chamavam as matanças de indígenas na época dos seringais) de índios isolados. Decidimos voltar para cá por conta de acreditarmos que esses caras possam estar realizando um massacre contra eles”.
Despois de capturado, foi encontrado em posse de Fadista pontas de flechas dos índios isolados e levantou-se ainda mais a suspeita do genocídio. Não houve investigação policial da denúncia dos sertanistas da Funai, nem no Brasil, nem no Peru. A descrição dos Xatanawa do massacre, segundo servidores da Funai, bate com a descrição física de Fadista, com a quantidade de pessoas e possíveis armamentos. O tráfico de cocaína vem a somar-se à indústria madeireira ilegal e a extração ilegal de ouro como as maiores ameaças físicas e diretas aos povos em isolamento voluntário na região.
Nações livres e autônomas: o isolamento como estratégia
Nas conversas entre os Xatanawa e os intérpretes também foram informados detalhes da existência de pelo menos oito populações indígenas isoladas que residem nesta remota região de fronteira entre Brasil e Peru, praticamente ao longo da linha do 10º paralelo sul.
Esses e outros grupos em situação semelhante hoje têm, de fato, conscientemente adotado o isolamento como uma estratégia para sobreviver em face da violência e da doença que foram levadas para essas regiões remotas durante o ciclo da borracha, entre 1895 e 1915. Na verdade, as primeiras referências ao Chitonahua remetem a 1895. Antes das correrias dos seringais, violentos massacres, esses grupos não eram “sem contato”. Estas sociedades participavam de intensas redes regionais, culturais e comerciais, amplos mecanismos de comércio interétnico, de trocas e de casamentos. Por esta razão, o termo “isolamento voluntário” foi cunhado pelo antropólogo Glenn Shepard em um relatório de 1996 sobre o estado de grupos isolados no Peru.
Shepard cunhou o termo “grupo indígena em isolamento voluntário” em virtude de avistamentos de índios nômades, nus, “sem contato”, no Rio de las Piedras e regiões próximas, na bacia do Madre de Dios no Peru onde a Mobil estava realizando prospecção para gás e petróleo. A ideia do termo era justamente para tentar superar as noções românticas e falsas geradas por termos como “índio não-contatado” de grupos na “Idade de Pedra” que tinham vivido numa espécie de Jardim de Éden até o presente.
A realidade é que os grupos autônomos remanescentes na Amazônia hoje são descendentes de grupos que, em resposta aos massacres, exploração e epidemias sofridos especialmente durante a Época da Borracha em adiante, escolheram o isolamento radical de todos os outros povos ao seu redor como último recurso para a sobrevivência. Nenhum grupo humano, em condições normais, vive isolado dos outros grupos ao seu redor: na Amazônia são testemunhadas na arqueologia e na etno-historia grandes redes de troca que alcançavam desde as regiões mais remotas da Amazônia até os capitais de grandes civilizações andinas e até a costa do Peru.
O isolamento é, portanto, um fenômeno recente na etno-história desses povos. E também altamente "moderno": o “isolamento voluntário” desses grupos é uma resposta à inovação tecnológica essencial da modernidade, o automóvel, e à demanda que isso criou nos mercados internacionais para borracha nativa da Amazônia no início do século XX. A industrialização provocou violência e o isolamento foi uma resposta a isso. Em certo sentido, esses povos que são tidos na imprensa sensacionalista como sendo da “Idade da Pedra” são tão modernos quanto qualquer outra pessoa em qualquer cidade, pois vivem o impacto dessa modernização. A verdade é que essa modernização distante trouxe para estas regiões terror, violência, mortes, massacres, escravidão.
"Isolar-se" transformando o modo de vida para o nomadismo, buscando refúgio em regiões distantes nas cabeceiras dos rios – onde não havia seringa – e evitar aproximação com a sociedade do entorno é, no fundo, uma estratégia política.
Contato e diplomacia: é preciso respeitar os Xatanawa
Em 1910, o Marechal Cândido Rondon escreveu que “Os índios não devem ser tratados como propriedade do Estado dentro de cujos limites ficam seus territórios, mas como Nações Autônomas, com as quais queremos  estabelecer relações de amizade”
As expressões correntes para designar essas relações diplomáticas e categorizar essas populações, sejam as correntes da imprensa, ou do governo, ou as da academia, são todas problemáticas e carregadas de preconceito. Primeiro, a própria ideia de classificar essas populações diversas em si é um limite e implica numa tentativa de dominação. Segundo, chamar de “isolados”, ou mesmo “autônomos”, significa dizer que há aqueles que não estão isolados, ou seja, nós, uma perspectiva etnocêntrica e preconceituosa, e a ideia de autonomia exclui toda a pressão externa e o interesse de algumas dessas por tecnologias, como machados, facões, armas de fogo.
Afinal, essas populações, como os Xatanawa, vivem mais ou menos onde sempre viveram, podendo ter adaptado seu território para se proteger das diferentes pressões que surgiram nos últimos séculos. O fato é que há 77 evidências de existir populações nessa situação de “isolamento voluntário”, uma situação em que passam a ser vulnerabilizadas a epidemias a partir do aumento das interações.
Ao longo do século passado, surgiu a função dos sertanistas como defensores humanitários dos povos indígenas. Foi o marechal Cândido Rondon quem deu essa conotação para a palavra – que até então designava os matadores de índios, como os bandeirantes. E a profissão se tornou uma especialidade do indigenismo para o contato com povos “arredios”, “bravos”, “isolados”, a partir do trabalho dos irmãos Villas Bôas na Fundação Brasil Central – que depois em 1967 passou a fazer parte da Funai, junto do Serviço de Proteção ao Índio.
Em toda a história dos contatos, seja durante a ditadura, seja antes, os sertanistas, como os Villas Bôas ou Chico Meireles, trabalhavam em condições sofríveis, com urgência para evitar o pior. A diplomacia sertanista consistia em se posicionar à frente das “frentes de expansão” para proteger os índios das guerras travadas pelos seringalistas, fazendeiros, pecuaristas, garimpeiros, ou do próprio governo, como no caso da construção de obras de infraestruturas, tais como a Transamazônica. Em 1987, por iniciativa dos sertanistas, liderados por Sydney Possuelo, foi criado o Departamento de Índios Isolados, e os processos de contatos passaram a ser evitados. A escolha passaria a ser dos povos indígenas. E o Estado brasileiro, por meio dos sertanistas, deveria realizar a proteção dos territórios para que essas populações que vivem de forma autônoma do Estado possam continuar a viver do jeito que desejam.
Essa política, hoje, vive um esgotamento, ao mesmo tempo que é mais garantida pela Constituição Federal e pela Convenção 169 da OIT. O esgotamento é que os planos desenvolvimentistas do governo não são alterados se eles impactam um território habitado por uma população nessa situação. Cria-se uma terra indígena, destinam-se recursos, mas se a Coordenação geral de Índios Isolados disser que não é possível realizar o empreendimento, é difícil imaginar, hoje, que ele não saia do papel por isso. E há 33 empreendimentos do PAC que impactam diretamente o território de povos indígenas considerados “isolados”, desde as usinas de Belo Monte, Jirau, Santo Antônio, Teles Pires, São Luiz do Tapajós, até estradas e hidrovias. Se o empreendimento for produzir risco de destruição do território e um consequente genocídio, ele não deve ocorrer. Acontece que, como declarou o sertanista José Carlos Meirelles, parece que o Brasil não tem vergonha de acrescentar genocídios ao seu currículo.
Fonte: http://www.cartacapital.com.br/blogs/blog-do-milanez/esqueca-mitos-coloniais-o-contato-dos-xatanawa-no-acre-poe-fim-a-uma-resistencia-centenaria-8896.html

Povos indígenas: cinco faces do genocídio



Survival International
Adital


Uma mulher aché pouco depois de ter sido capturada e retirada da selva, em 1972, Paraguai.

Em virtude do Dia Internacional dos Povos Indígenas, celebrado no dia 09 de agosto, a organizaçãoSurvival International expõe o caso de cinco povos indígenas e tribais que foram vítimas de genocídio durante o século XX, e adverte sobre um potencial genocídio que poderá ser cometido neste século.

Entre os povos indígenas que enfrentaram a violência genocida se encontram:
- Os achés, Paraguai: em um julgamento sem precedentes, que começou no passado mês de abril, a tribo dos achés levou o Governo do Paraguai aos tribunais pelo genocídio que sofreram. Os achés foram dizimados depois que os colonos realizaram verdadeiras caçadas humanas, em que a maioria dos homens era assassinada, capturaram os indígenas e os venderam como escravos durante as décadas de 1950 e 1960.
- Os akuntsus, Brasil: em 1985, investigadores do governo descobriram uma casa coletiva inteira que havia sido destruída, evidência do brutal massacre praticado por homens armados, que assassinaram a maioria dos integrantes da tribo akuntsu. Os cinco sobreviventes, que se mantêm com vida, são as últimas testemunhas desse genocídio silencioso.

Cinco akuntsus são os últimos sobreviventes de um genocídio silencioso no Brasil.

- Os jummas, Bangladesh: o exército de Bangladesh e uma onda de colonos desenvolveram uma campanha genocida baseada em assassinatos, violações, torturas e na queima de comunidades jummas. Um acordo de paz, em 1977, colocou fim às piores atrocidades, mas os assassinatos e o incêndio de aldeias jummas, assim como o roubo de suas terras e as detenções, continuam sendo praticados sem nenhum controle.


Os jummas sofreram uma campanha genocida nas mãos dos colonos e do exército de Bangladesh.

- Os yanomamis, limite fronteiriço entre Brasil e Venezuela: em 1933, os exploradores de ouroatacaram, brutalmente, a comunidade yanomami, de Haximú: 16 yanomamis morreram assassinados, entre os quais estavam anciãos, mulheres e crianças. Em uma sentença sem precedentes, quatro dos culpados foram condenados por genocídio. As ameaças continuam até hoje em dia.


Sobreviventes do massacre de Haximú, no qual 16 yanomamis morreram assassinados nas mãos de exploradores de ouro, mostram as urnas que contêm as cinzas de seus familiares.

-Os awás, Brasil: especialistas brasileiros qualificaram a violenta invasão e destruição da selva dos awás por madeireiros armados como genocídio. Um representante do governo brasileiro declarou, em 2011: "Se não foram adotadas medidas de emergência com rapidez, o futuro desse povo é a extinção”. Em janeiro de 2014, os invasores foram expulsos do principal território awá, graças àintensa campanha de pressão desenvolvida pela Survival.


Legenda 5: Karapiru, homem awá, presenciou o massacre de sua família por estrangeiros, Brasil.


Conheça a galeria da Survival "Cinco rostos do genocídio”.


A história voltará a se repetir?

No passado mês de junho, um grupo de indígenas isolados surgiu no Brasil, após ter atravessado, aparentemente, a fronteira com o Peru. Explicaram aos intérpretes que sua comunidade havia sofrido violentos ataques durante os quais a maioria dos anciãos havia sido assassinada e seus lares queimados.


Indígenas isolados que emergiram próximo da fronteira entre Peru e Brasil. Os especialistas advertem que poderá produzir-se "outro genocídio”. Funai

"Disseram que morreu tanta gente que não puderam enterrar todos e que os abutres comeram seus cadáveres”. Especialistas brasileiros advertiram que "outro genocídio” poderá acontecer se o território não for protegido dos madeireiros e dos traficantes de drogas, suspeitos de terem praticado essa atrocidade.
Stephen Corry, diretor da Survival International, movimento global pelos direitos dos povos indígenas e tribais, declarou: "As sociedades industrializadas submetem os povos indígenas a uma violência genocida, à escravidão e ao racismo, de modo que possam usurpar suas terras, recursos e mão de obra em nome do ‘progresso’ e da ‘civilização’. Desde o amanhecer da Era do ‘Descobrimento’, os povos indígenas foram vítimas inocentes de uma colonização agressiva de seus territórios. Retratando-os como atrasados e primitivos, os invasores justificaram a aniquilação cruel e sistemática que ainda seguem praticando até hoje. É hora de colocar fim ao genocídio”.

Esta não pretende ser uma lista de todos os casos de genocídio perpetrados contra os povos indígenas durante o século XX.

Fonte: http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=81901&grv=N

domingo, 3 de agosto de 2014

Moura Tukano viajou aos céus dos ancestrais indígenas

Amig@s e parentes,

Cumpro o doloroso dever de informar de que hoje, domingo, 3 de agosto, faleceu MOURA TUKANO. Essa informação veio através de sua esposa Maria Verônica Vieira Moreira.

Ao longo desses últimos dias tivemos informes gerais sobre a gravidade da doença de Manoel Fernandes Moura, mais conhecido Moura Tukano, o nosso muito estimado líder e escritor indígena do Amazonas, membro da Comissão de Direitos Indígenas do Projeto Rondon e um dos fundadores da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e de outras ações tantas, e, notadamente, do Movimento Indígena (1970-1990), ao lado de outras lideranças como Ailton Krenak, Álvaro Tukano, Marcos Terena, Eliane Potiguara, entre outras.

Além de sua trajetória, passei a conviver com o estimado Moura quando participei do 8º e 10º EEAI - Encontro de Escritores e Artistas Indígenas, a convite de Daniel Munduruku e Graça Graúna. Nesses encontros a presença de Moura Tukano foi fundamentadora e enriquecedora para todas pessoas envolvidas - para índios e não índios.

Que honra e alegria foi estar ao seu lado! Jamais esquecerei tamanha oportunidade! Perto dele o admirávamos e sorríamos muito e... íamos para cima do que precisava ser enfrentado. Ao saber do que lhe consumia na UTI fazíamos de longe tudo o que podíamos motivados por sua Luz e por nosso Amor à Ele: Moura Tukano!!!

É, parentes, quanto ensinamento, quando naqueles dias, naquela montanha do Rio de Janeiro, perto do Cristo Redentor em tantos para trabalhos para fundarmos a nossa AssEArIn e que ele nos sugeriu que fosse: Diroá - AssEArIn - Associação de Escritores e Artistas Indígenas -, ele nos informou o papel dos Diroás em nossas vidas - já escrevi algumas linhas a respeito - dizia ele e quem lhe ouviu deve agora saber o real sentido e função dos Diroás... Eu sei o que ele nos ensinou e sinto o que é saber o que ele nos ensinou! Manoel Fernandes Moura Tukano está encipoado nas vidas pelas quais passou. Eu, apesar da dor dessa separação - serei mais feliz, mais forte. Ele ficou por dentro!

É muito difícil escrever estas palavras. Penso que o melhor a fazer é dinamizá-lo por dentro de nós e colocá-lo, ora em diante, em nossas atitudes!









quinta-feira, 31 de julho de 2014

Índios isolados podem ser exterminados no Acre por despreparo da Funai

por 

Texto de Altino Machado para Blog da Amazônia
Além dos massacres perpetrados há anos por madeireiros e narcotraficantes do lado peruano, os povos indígenas isolados que vivem na fronteira do Acre com o Peru correm risco de extermínio por causa do despreparo e da falta de estrutura da Fundação Nacional do Índio (Funai) do lado brasileiro.
Jovens indígenas de grupo isolado durante o primeiro contato no Acre
Jovens indígenas de grupo isolado durante o primeiro contato no Acre
A Frente de Proteção Etnoambiental Envira foi invadida há três anos por narcotraficantes peruanos, os funcionários da Funai fugiram e a base só foi reaberta no mês passado, quando os índios isolados tomaram a iniciativa de estabelecer os primeiros contatos.
O antropólogo Terri Aquino, da Funai, que há 39 anos atua na região, declarou ao Blog da Amazônia que a autarquia não está preparada para estabelecer contato com povos indígenas isolados porque desde 1987 adotou como política o não contato.
- Os índios isolados estão em busca de proteção e de acesso à tecnologia, ou seja, machado, pólvora, terçado, panela. Chegou a hora do estado brasileiro ser generoso. Não pode ficar o tempo todo dizendo não e não aos isolados. Do contrário, nesta fase do contato, os isolados podem se revoltar e acontecer um massacre envolvendo a jovem equipe de indigenistas da Funai que pouco conhece a floresta – alertou.
Em vídeo gravado pela equipe da Funai, na Aldeia Simpatia, da Terra Indígena Kampa e Isolados do Alto Rio Envira, o sertanista José Carlos Meirelles, que viveu durante mais de 20 anos na FPE Envira e atualmente trabalha na Assessoria Indígena do governo do Acre, disse que o grupo de índios isolados que buscou contato com a Funai está sendo pressionado por pessoas (madeireiros e narcotraficantes) que atuam no Parque Nacional do Purus, no Peru.
Meirelles relatou que os índios deixaram claro que estão sendo mortos a tiros de espingarda e que tocaram fogo em suas casas.
- São todos jovens e a impressão que passa é que esse povo quer se chegar a alguém que não mate eles. Estão pedindo para a gente a nossa obrigação funcional. Esse pessoal está pedindo à Funai o que o estado brasileiro tem dever de fazer. Eles nem precisariam estar pedindo, pois é obrigação nossa.
O sertanista considera a situação complicada e defende que a FPE Envira receba apoio real para que possa proteger os índios isolados.
- Se não derem estrutura para que as pessoas segurem o que vem por aí, infelizmente nós vamos repetir a história e seremos co-responsáveis pelo extermínio desse povo. Se a gente não fizer nada agora, se o estado brasileiro não se movimentar e realmente entender que essas pessoas merecem viver, que o estado brasileiro diga que vai deixá-los morrer. Não dá mais para contemporizar. Ou faz, dando estrutura, ou o estado brasileiro diz: tudo bem, mais um genocídio no meu currículo.
Terri Aquino revelou que já existe um clima de insatisfação envolvendo o grupo de oito índios isolados que se estabeleceu desde o domingo (27) na FPE.
- Os isolados querem terçados, munição, armas, panelas, roupas. A Funai não tem nada para oferecer e isso já forçou o recuo do pessoal do pessoal da base da FPE para a Aldeia Simpatia. Os conflitos surgem em bases de contato quando os índios chegam e não encontram nada.
No entendimento do antropólogo, a Funai precisa cuidar de um nova terra para os índios isolados e indenizar as benfeitorias das famílias dos índios do entorno saqueadas pelos isolados. Foram mais de 70 casos de saques nos últimos 30 anos, sendo a maioria no período de 2006 a 2013.
- As famílias nunca foram indenizadas. Os ashaninka, por exemplo, receberam os índios isolados e não tiveram nenhuma reação agressiva. Perderam tudo o que tinham. A Funai, sem cogitar indenizar essas famílias, cria um ambiente desfavorável no entorno. Isso pode criar uma reação agressiva.  
Terri Aquino acha imprescindível a presença da Força Nacional de Saúde para prestar assistência e imunização contra doenças que os índios isolados não tem resistência.
- É preciso atender da mesma maneira os índios do entorno, que estão totalmente desassistidos. Eu mesmo presenciei recentemente, na Aldeia Simpatia, criança morrendo de diarréia. A Funai não vai segurar os isolados na base sem que não tenha nada para oferecer.  Não tem comida, nada. A Funai pode ser responsável até pela morte de seus funcionários.
Terri Aquino e Carlos Travassos cobram apoio do governo à Funai
Terri Aquino e Carlos Travassos cobram apoio do governo à Funai
O geógrafo Carlos Travassos, chefe da Coordenação-geral de Índios Isolados da Funai, informou que opera com apenas R$ 2,3 milhões no orçamento, sendo que 30% estão contingenciados. Recentemente, no Acre, o indigenista Guilherme Siviero, tirou do próprio bolso R$ 800 para comprar um canoa necessária para o trabalho da equipe envolvida na proteção dos isolados.
- A previsão é de que no próximo ano haja redução orçamentária. É assim que atuamos na proteção de 27 grupos de índios isolados confirmados, monitorando 31 milhões de hectares de terras indígenas na Amazônia Legal, onde são mantidas 12 frentes de proteção etnoambietnal – afirma Travasssos, que trabalha na Funai há sete anos, tendo atuado nas frentes de proteção etnoambiental do Javari e Médio Purus.
Também, em vídeo gravado pela Funai na na Aldeia Simpatia da Terra Indígena Kampa e Isolados do Alto Rio Envira, o coordenação-geral de Índios Isolados da Funai disse que é crescente a dificuldade orçamentária e de recursos humanos. Planeja, faz uma série de diagnósticos, busca criar planos de contingência para situação de contato, mas surgem vários cortes orçamentários, além do recrudescimento sobre as obrigações do estado brasileiro em reconhecer terras indígenas onde há a presença de índios isolados.
- Nosso orçamento, por mais que tenhamos mostrado e comprovado a necessidade de se aumentar, o que temos visto é a diminuição. Os compromissos estabelecidos na área de saúde não vem sendo cumpridos. As populações indígenas no entorno dos povos isolados talvez tenham a pior atenção na área de saúde.
Segundo Travassos, a base do Xinane, que foi fechada por causa da presença de narcotraficantes vindos do Peru, contou com reações esporádicas da Polícia Federal, sempre com muito sacrifício.
- O que temos ouvido é que é uma presença inócua de narcotraficantes e que isso não é prioridade para as autoridades policiais. Acho isso um absurdo. Acho que quando se tem uma população de povos isolados e povos contatados, à mercê de bandidos, que trabalham ilegalmente com o uso da força, da espoliação de território e de genocídios, isso deveria ser levado a sério dentro de uma política nacional e internacional encabeçada pelo Brasil.
No epoimento a que a reportagem teve acesso, Travasssos assinala o fato de que os índios isolados que procuraram estabelecer contato são muito jovens.
- Hoje, a situação que temos é ver esses jovens, que sobreviveram a alguns massacres. Talvez seja a última vez que estejamos vendo esses meninos, que amanhã podem estar mortos, seja por doenças ou tiros de espingarda. Faço um apelo ao alto escalão do governo, principalmente ao Ministério do Planejamento, que tem ignorado nossos projetos e nossas solicitações de medidas orçamentárias. Faço um apelo às forças federais de segurança pública para que possam nos dar apoio na região. Temos que ter capacitação para enfrentar grandes criminosos que vem do outro lado com grande poder de fogo. Dispomos de todas as informações do que é necessário para se realizar um trabalho melhor. Isso já foi repassado ao governo e eu gostaria que isso fosse tratado seriamente. Muitas vezes essa questão dos índios isolados, a informação que levamos, não são levadas a sério. Os servidores da Funai se sacrificam para proteger esses povos, mas o governo precisa dar apoio para que se possa realmente fazer um trabalho humanitário, correto e republicano, para que populações inteiras não sejam exterminadas.
Fonte: https://ninja.oximity.com/article/%C3%8Dndios-isolados-podem-ser-extermi-1

Funai prevê chegada em massa de índios isolados na fronteira do Acre

Por NINJA

O coordenador-gera de Índios Isolados e Recém Contatados da Fundação Nacional do Índio (Funai), Carlos Lisboa Travassos diz, em entrevista exclusiva à agência Amazônia Real, que a equipe responsável pelo contato com os índios desconhecidos da fronteira do Acre com o Peru enfrentou a descofiança e o medo para convencê-los a tratar com remédios dos “brancos” uma gripe capaz de exterminar todo a tribo, que vive em local de difícil acesso da floresta do oeste da Amazônia brasileira.
Índios isolados foram identificados como o povo do Rio Xinane (Foto: Divulgação Funai)
Índios isolados foram identificados como o povo do Rio Xinane (Foto: Divulgação Funai)
Travassos afirma que o índios isolados recém contatados foram identificados como o povo do rio Xinane, pertencente ao tronco linguístico Pano. Sem resistência para doenças como pneumonias, eles foram convecidos a tomar os remédios pelos intertérpretes da etnia jaminawá, que falam dialetos da mesma língua. O próximo passo é vacinar todo o grupo.
Na entrevista à Amazônia Real, o coordenador-geral de Índios Isolados diz  que a situação na fronteira é crítica. Na região há várias tribos compartilhando o mesmo território pacificamente. Mas a perspectiva é de que haja uma aproximação massiva do grupo indígena isolado na base da Funai do rio Xinane, o que exigirá, segundo Travassos, de uma resposta do governo brasileiro na proteção da integridade física e cultural da etnia. Ele disse que a Funai pediu ajuda ao Itamaraty para intermediar a participação do governo peruano nas ações.
A base do Xinane fica localizada na Terra Indígena Kampa e Isolados do Rio Envira, entre os municípios de Feijó e Jordão (Acre), com acesso possível apenas de aeronave ou barco, o que exige recursos para logística e a contratação de servidores. Nesta região vivem os ashaninka e há vestígios de mais duas tribos desconhecidas, o povo do Riozinho e o povo do Rio Humaitá.
Carlos Travassos disse que o contato na aldeia Simpatia dos índios ashaninka, que aconteceu no dia 26 de junho, por pouco não deu certo.
Amazônia Real – Como aconteceu o contato entre os índios isolados e o povo ashaninka?
Carlos Lisboa Travassos –  Estava havendo uma movimentação desse grupo de índios isolados na aldeia Simpatia, dos índios ashaninka, desde o começo do mês de junho. O Guilherme (Siviero, chefe da Frente de Proteção Etnoambiental do Rio Envira)foi para a região, fez uma caminhada na mata e percebeu os vestígios de índios isolados. Ele retornou para Rio Branco (AC) e voltou no dia 13 de junho com uma equipe da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena, vinculada ao Ministério da Saúde) e o sertanista José Carlos Meirelles, que é da assessoria indígena do governo do Acre. No dia 26 de junho aconteceu o primeiro contato dos índios isolados. Eles apareceram atravessando o rio Envira. A aldeia Simpatia fica bem na margem do rio. Eles assopravam barulhos de animais.  Foram contatos razoavelmente rápidos, algumas horas e depois retornaram para mata. Foi assim nos dias seguintes. Os diálogos foram realizados por dois intérpretes muito habilidosos, que conhecem os dialetos da língua Pano, o mesmo tronco linguístico dos índios isolados: José Corrêa Jaminawa, 70 anos, e o Almerindo Jaminawa, 60 anos. São pessoas muito experientes que conseguiram manter uma comunicação plena com os índios e uma relação de confiança.
AR – Quantos índios apareceram na aldeia Simpatia?
Travassos – Primeiro fizeram o contato cinco homens. Eles são muito jovens, numa faixa de 12 a 21 anos de idade. Têm altura média dos outros indígenas (1,70 metros) e físico muito forte, são muito saudáveis.  Disseram que há muito tempo nos observavam. Reconheceram os servidores da Funai da base do Xinane, reconheceram o Meirelles. Contaram que observavam as aldeias que têm por ali há muitos anos. Eles disseram que todos os anos descem as cabeceiras do rio Envira para coletar quelônios (tartaturas, tracajás) durante o verão e para caçar e pescar. Eles têm uma atividade produtiva nesse período de seca na Amazônia. A maloca deles fica na outra margem de afluentes do rio Envira, já no território peruano. Nessa época do ano, o rio seca e as águas dão na canela. O tempo todo eles atravessam o rio de um lado para o outro.
AR – Dos quatro grupos avistados naquela região, esse povo é do rio Xinane avistados nos últimos 30 anos?
Travassos – Não queríamos divulgar muito, mas não tem jeito, esse é o povo do Xinane sim.
AR – Como vocês os identificaram?
Travassos – Conversando, eles foram descrevendo a rota que deveríamos fazer para chegar na aldei a deles. Facilmente descobrimos que fazia parte do grupo. Uma vez por ano fazemos um sobrevoo para monitorar a região, com aeronave em altura específica para não assustar os índios. Tiramos pouquíssimas fotos. Nunca fotografamos esses índios dentro da maloca.
AR – Quais são os traços culturais deles que os diferenciam dos outros grupos de isolados?
Travassos – É principalmente a casca de envira (uma  árvore da floresta tropical), na qual eles amarram o pênis. Eles usam uma fibra também de envira amarrada na cintura, na qual levam um facão. Outra característica marcante é o corte de cabelo,  sempre bem curto. O arco e a flechas são feitos de madeira de pupunha (palmeira nativa). A ponta da flecha é feita de taboca, um tipo de bambu. É uma flecha bem belicosa.
AR – E sobre os não-índios da equipe,  o que eles perguntaram?
Travassos – Percebemos que eles estavam muito desconfiados com os brancos, não índigenas, o que mostra uma experiência não muito boa com nossa etnia. Eles estranharam bastante que cada um de nós tem um cabelo de um jeito. Um é mais escuro, outro é louro, outro é moreno. Perguntaram porque éramos tão diferentes assim. Como poderiam recorrer a gente se cada um era de um jeito? O intérprete disse que existiam muitas pessoas como nós, cada uma tinha um jeito diferente, mas que as pessoas que estávam naquela base eles poderiam confiar.
AR –  Os índios pediram para provar a comida de vocês?
Travassos – Foi bem curiosa essa parte. A gente estava com uma alimentação muito básica, de equipe de campo. Tínhamos uma preocupação de oferecer comida que fizesse mal pra eles, porém, em algum momento, eles vieram experimentar a nossa comida, que era arroz e feijão. Eles  acharam tudo horrível, imprestável. Eles não comem sal. Se alimentam de macaxeira, bananas, peixes. É a alimentação que eles comem.
AR – Como os índios contraíram o vírus da gripe?
Travassos – No dia 4 de julho eles apareceram na aldeia Simpatia. Eu já estava lá.  Depois retornaram para mata. No dia 5 de julho nós percebemos que eles contraíram gripe. O médico (Dr. Douglas Rodrigues, representante da Secretaria de Vigilância em Saúde) fez a primeira medicação para controlar a febre. E aí eles retornaram para mata. Então foi um momento de muita tensão nossa porque não sabíamos se tinha mais pessoas no acampamento que eles estavam, quantas pessoas eram. Depois não sabíamos se eles tinham retornado ao grupo maior, que também seria o pior dos mundo para gente. Seria disseminar uma gripe para um grupo inteiro num local de difícil acesso. Mas, felizmente, a gente encontrou com eles no meio do rio Envira e os convencemos a viajar até a base do rio Xinane.
AR – Como eles aceitaram viajar da aldeia Simpatia para a base do Xinane?
Travassos – Nós dependemos muito da qualidade dos dois intérpretes jaminawa.  São pessoas muito maduras, que conseguiram um diálogo muito bom e conseguiram explicar que a gripe não era um xamanismo, um feitiço, era algo que todos nós acabávamos contraindo e que só sarava quando tomava o remédio. Então esse convencimento se deu quando perceberam que a saúde deles estava piorando. Eles voltaram ao acampamento e buscaram o restante do grupo, que eram duas mulheres, que não tinham aparecido. Eram mulheres de dois deles.
A base do Xinane fica distante cerca de 3 horas de viagem de voadeira (canoa de alumínio com motor de popa). Foi a primeir vez que eles entraram num barco com motor. Na base  tem um chapéu de palha (uma cabana) onde permaneceram acampados por quatro dias e meio em tratamento, de 6 de julho a 10 de julho. Isso permitiu quebrar o ciclo que os médicos dizem de disseminação do vírus da gripe. Eles só retornaram ao acampamento deles quando tivemos certeza de que não iriam levar aquela gripe ao restante do grupo. No último dia em que eles estavam bem melhor da gripe, saíram para caçar e chamaram a equipe para comer com eles. Juntos, como uma relação.
AR – Como foi o tratamento com remédios?
Travassos – Primeiro eles estabeleceram uma relação de confiança com os intérpretes jaminawá.  Os intérpretes conseguiram explicar para eles quem eram aquelas pessoas que estavam ali. Porque não usávamos armas, qual era o nosso trabalho. Foi um momento de muita desconfiança, mas essa desconfiança tem toda uma dinâmica, uma formalidade em que foram construídos os laços de confiança. A grande sorte dos índios isolados foi que esses intérpretes conseguiram ministrar essa situação, que era tensa e não sabíamos se teria êxito. Então, eles perceberam que o primeiro medicamento que o médico ministrou deu efeito, a febre baixou. Todos os medicamentos foram orais.
AR – Eles foram vacinados contra gripe e outras enfermidades?
Travassos – Não. Como nossa preocução era ministar os remédios da gripe, numa possível aproximação deles queremos estar preparados para vacinar e imunizar todos.
AR – A equipe da Coordenação quere ir até à aldeia?
Travassos – Não. Informamos a eles que em novo contato devem procurar a base da Funai no rio Xinane, onde vão permanecer os funcianários. Dissemos que essa aproximação na aldeia Simpatia foi muito perigosa, não pelos índios ashaninka, mas por parte das doenças.
AR – Os índios isolados disseram quantos vivem na aldeia?
Travassos – Eles deram um número aproximado ali no jogo de informações, na confiança de 10 famílias morando na maloca (cerca de 50 índios). Mas, se todo mundo retornar à base vai ser complicado.
AR – O que levou esse grupo a se aproximar tanto das casas dos ashaninka e formalizar o contato?
Travassos – Essa situação é reincidente todos os anos quando os rios Envira, Tarauacá e outros daquela região do Acre secam. Nossa grande preocupação é quando estabelece o contato como ocorreu. Eles, de forma nenhuma, tiveram uma aparição agressiva na aldei ashaninka. E por sua vez, os índios da aldeia Simpatia não tiveram nenhuma reação violenta contra eles. Inclusive ofereceram roupas, utensílios, facilitando esse contato. Agora o que motivou eles a estabelecer o contato? É algo que a gente não consegue obter nos primeiros diálogos porque existe ainda uma situação de querer estabelecer confiança. O trabalho dos intérpretes no momento do contato foi mostrar que aqueles não-índios que moram na casa, que é a base do Xinane, estão ali para protegê-los e apoiá-los. Eles não sabiam disso, não imaginávamos que aquelas pessoas eram aliadas deles.
AR – Eles relataram a violência de não-indígenas por arma de fogo?
Travassos – Nos diálogos que estabelecemos trocamos muitas informações.  Perguntamos quantos grupos de índios isolados vivem na região, se eles conheciam outros não índios. Num certo momento disseram que conheceram outros não-índios, mas que eram pessoas muito malvadas, que atiraram neles e que teriam morrido pessoas. Eles fizeram os barulhos das armas de fogo e gestos das pessoas alvejadas. Disseram que encontraram esse não-índios nas cabeceiras do rio Envira. As cabeceiras do rio Envira ficam dentro do território peruano, então achamos que esse pode ser um fato que possa ter levado eles a se aproximar da aldeia Simpatia e estabelecer o contato, mas eu não apostaria que esse é o fator principal. E nem saber se são madeireiros ou narcotaficentes. Como fazemos parte do governo, nós solicitamos informações ao governo peruano por meio do Itamaraty. Enquanto governo, nós só podemos solicitar essas informações. A gente não pode  entrar no território peruano, não podemos sobrevoar o território,  a gente fica limitado a fronteira seca.
AR – Há quanto tempo aconteceu essa violência? Foi recente, foi anterior ao contato?
Travassos – Perguntamos se foi nesse ciclo do verão, eles falaram que não. Teria passado algum tempo. Mas, acreditamos que tenha sido dois ou três anos atrás. Alguns verão anteriores. O que eles falaram é que foram atos de violência por não índios nas cabeceiras do rio Envira, que não fica no território brasileiro. Essas informações foram repassadas por eles. Isso eu posso afirmar porque é nosso dever pedir informação. É uma situação delicada e cabe a diplomacia brasileira fazer esse diálogo com o governo peruano.
AR – O que esse contato com os índios significa para a estrutura política e econômica da Funai?
Travassos – Nossa perspectiva é de muita preocupação porque é uma situação muito específica, onde você tem que ter uma resposta muito rápida por parte do Estado Brasileiro. São regiões de difícil acesso, com logística cara. Nós estamos com grande difiuldade com recursos financeiros e recursos humanos disponíveis para trabalhar. Então, o contato foi de alguma forma uma ação exitosa, uma série de fatores concluíram para isso, mas estamos esperando por uma situação bem mais crítica, que é uma situação de aproximação massiva desse grupo. De forma nenhuma a gente vai se negar a agir como a gente agiu, ou seja, responder o contato da melhor forma possível. Mas a gente percebe que a situação é crítica e que há necessidade de ter uma resposta do governo brasileiro como todo, do governo federal à altura que situação exige.
AR – O governo liberou recursos para esta ação do contato?
Travassos – Para essa situação nós conseguimos readequar os recursos da Funai. A Sesai buscou disponibilizar uma equipe capacitada. Informamos aos ministérios da Justiça e Saúde a gravidade da situação para que podemos ter um retorno positivo e fazer nosso trabalho da melhor maneira possível.
Nossa preocupação é grande porque pode ser que esse seja o primeiro de vários contatos desses grupos. Há índios isolados no Vale do Javari, no Amazonas. No Maranhão há a situação dos índios Awá-Guajá. Então a gente percebe que o que evitávamos, que era o contato que a gente pensava que ia durar alguns anos, eles podem estar ocorrendo a qualquer momento. Quero reforçar que foi (o contato na aldeia Simpatia) uma situação que por pouco não deu errado. Poderia ter tido um resultado muito ruim na questão da gripe e da disseminação incontrolável de um surto epidêmico, que a gente não tem como atuar. Os índios isolados não têm resistência. Houve uma série de situações favoráveis, as presenças dos intérpretes jaminawá, do Dr. Douglas Rodrigues, do sertanista José Meirelles, o esforço de toda a equipe que deu certo. Poderia não ter dado porque as estruturas que existem precisam ser melhoradas substancialmente se o nosso país não quiser ver uma situação lamentável que seria uma perda de índios isolados por conta de um contato com surto epidêmico
 Fonte: https://ninja.oximity.com/article/Funai-prev%C3%AA-chegada-em-massa-de-1