quinta-feira, 6 de maio de 2010

Fronteira Indígena - Índios & Índios: uma pluralidade

Semana da Consciência Indígena – Abril 2011
O CEPAIA - Centro de Estudos dos Povos Afro-Índio-Americanos, da UNEB, realiza entre os dias 18 e 20 de abril a Semana da Consciência Indígena, evento alusivo à celebração ao Dia do Índio.

O evento contou com a parceria da Associação Nacional de Ação Indigenista - ANAÍ. Para a mesa redonda no auditório da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia – UFBA, na Federação – São Lázaro, em Salvador. Para esta parte da programação convidei o cacique Juvenal Payayá. Fui com minha esposa Natalina Bomfim e nosso filho Yã Bomfim Ribeiro.

Presidiu a mesa redonda a Profª Drª Maria do Rosário Gonçalves de Carvalho. O antropólogo José Augusto Laranjeiras Sampaio, o Guga, como é carinhosamente chamado por amigos e colegas, fez a abertura focando entre alguns aspectos históricos alguns dados demográficos quanto as evoluções e lutas por retomadas e afirmações dos povos indígenas, destacando as ações entre os Potiguara e os Kiriri entre as décadas de 70 e 80, respectivamente.

Os convidados para a mesa foram Glicéria Tupinambá e seu irmão, o cacique Babau Tupinambá, que vivem na Serra do Padeiro, município de Buerarema na Bahia. Eles se tornaram bastante visibilizados por estarem sendo criminalizados em virtude do “modo de luta Tupinambá”, digo, por lutarem pelo cumprimento dos direitos que estão sendo negados – como o direito de viver em suas terras – onde vivem desde os tempos antigos onde seus ancestrais “nasceram os dentes”.

Glicéria, liderança feminina entre as mulheres Tupinambá destacou que o direito não se negocia e que estão sendo criminalizados porque buscam por seus direitos. Babau que passou por 8 penitenciárias, dentro e fora do Estado da Bahia, ficou preso em um presídio de segurança máxima, citou sobre a liderança Pataxó, Joel Braz que não pode vir a este encontro por motivos de segurança. Babau falou de projetos de roças, educação, centro de informática, dos valores culturais e espirituais, inclusive de os Tupinambá são apenas 20% matéria e 80% por conta dos Encantados e para estes que eles vivem e lutam.

O pensamento-chave que marcou a posição dos participantes da mesa e dos presentes no plenário é de que há em nossa sociedade (ainda) um preconceito de os índios não têm um lugar no presente e que devem se contentar com seu um lugar no passado. Que pena que com este conceito se manda matar, espoliar, criminalizar, em pleno séculos XXI – todo(a)s aqueles e aquelas que não foram extintos, mas que, “aldeados”, “moídos”, “dissolvidos”, “assimilados” assumem a sua identidade étnica e lutam por seus direitos legítimos num Estado democrático.

A fim de que tenha a mobilização indígena, mais fóruns de discussão, reflexão e ação, Babau disse nesta mesa redonda que tem muito interesse em articular os parentes de todo o território brasileiro, inclusive caciques e outras lideranças. Um destes encontros já está previsto para acontecer em Brasília – DF.


Enfim, há que se agilizar a demarcação e desintrusão de terras indígenas e que acabemos com a crescente criminalização de lideranças indígenas, quer na Bahia e demais Estados do território nacional.

Sobre as comemorações a antropóloga Celene Fonseca, integrante da comissão organizadora do CEPAIA, assevera: “Comemorações são importantes quando acompanhadas de reflexões sobre o tema. Nessa semana, nosso objetivo é debater a real situação dos índios na atualidade. Não basta colorir os rostos das crianças com pinturas faciais que lembram os indígenas. É preciso refletir sobre a situação dos povos originários e o seu lugar na sociedade brasileira”.

A programação contou com outras atividades, em outros espaços da capital do Estado, entre estas, a palestra “Os povos indígenas na Bahia” ministrada por Nádia Acauã Tupinambá, representante indígena no Conselho Estadual de Cultura.

A Semana da Consciência Indígena contou com apoio da Secretaria Estadual de Cultura (SECULT), da Fundação Cultural do Estado (Funceb), do programa Educação e Profissionalização para a Igualdade Racial e de Gênero (CEAFRO) da Universidade Federal da Bahia (UFBA), do Espaço Cultural Pierre Verger, da Associação de Arte, Meio Ambiente, Educação e Idosos (Amei) e do Cineteatro Solar Boa Vista.

Fonte:
http://www.uneb.br/2011/04/15/cepaia-promove-seminario-em-celebracao-ao-dia-do-indio/

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UNS ÍNDIOS*

Uns índios pera aí,
Outros pequeninos nordestinos,
Outros tantos com destinos-norte na Calha da Morte
Pelas beiras, beradêros, caatingas,
Ribeiras, brenhas, babaçuais,
Manhas, manhãs e margens...

Uns grandes como os xinguanos,
Outros xingando e de bordunas no ar!
Outros tantos como Eliane Potiguara e Graça Graúna,
Mais outros como Daniel Munduruku e Marcos Terena...

Uns como Babau Tupinambá e Juvenal Payayá,
Outros como Raoni e Sapain,
Tantos outros como Tuira Kayapó e Maninha Xukuru
Todos e todas índios e índias
Diante das lentes, códigos
Lupas, gráficos e DNAs manobrando,
Girando, prospectando e decidindo
O que somos - o que querem
Que sejamos...

Uns e outros tantos índios e índias
vão descendo – subindo - margeando
Rios, pontes, viadutos, estrelas
Ciências, velocidades, aquisições cognoscentes
Violências, tecnologias, redes
Estupros, inundações, vilanias
Transposições, viadutos, teses...

Todos e todas transmutando os Peris e Iracemas
Em todas as dimensões:
Sólido, gás, líquido, átomos, palavras,
Alma, cor, gesto, cheiro
Sombra, luz...
(e serem e são: magníficos!)

Da ação, sim, da permanência, sim,
Do não estar oculto, sim,
Mas nas trincheiras, nas arapukas,
Nos rituais... eles e elas
Proscritos "Wirás", obstinados "Wirás"
Pelas beiras, beradêros, bugreiros,
Caribocas, caboclos,
Manhas, manhãs e margens...
Eles estão e estarão por aí
E por aqui!
Abá am iõ te!
“Índio vai continuar de pé!”

(Ademario Ribeiro)

ÍNDIO TEM QUE...

Índio tem que
botar o pé na massa
na estrada
na universidade
na ancestralidade
no tribunal
nas cotas!
Chega de pés em suas costas
ou de lhe virarem às costas
ou de lhe negarem as cotas

Índio tem que
botar p’ra correr
os que lhe roubam
- a mulher
- o filho
- as plantas
- as aves
- os bichos
- a terra
- a língua
- o sagrado
- o profano
- o sangue...

Índio tem que
se representar
não só se apresentar
como artistas natos
suas plumagens e pinturas e artesanatos...

índio tem que
sair da mata
fazer acontecer
porque senão
não vai acontecer...

Só vai acontecer
se índio
botar o pé
meter a borduna
botar o saber p’ra circular
contextualizar
retomar os rituais
a antropofagia
e meter a cara
a boca
dar a louca...

“Eles” meteram o pé
meteram a cruz
meteram as doenças
meteram o canhão
meteram o machado
meteram o trator
meteram as multinacionais
meteram a transposição
e são cheios de nhen-nhen-nhen!!!

Não somos a favor da revanche
nem à favor do desmanche
mas sabemos que o que era tudo teu
agora é de “todos” que aqui estão
e têm alguns que
já meteram a mão no rio,
no mar, na terra,
na lei, na bíblia, nos planaltos
e estão fazendo de tudo
para que “tudo” seja só deles
e há outros que deveriam ser
aliados como no passado de Pindorama
mas estão confusos pensando que
“a farinha é pouca...”
que é “tempo de murici...”

Mas eu digo que ainda é tempo
de mojar cecê! “unir o que foi cortado!”.
Nda s-ar-i abati ranhé!
“a espiga ainda não tem milho!”
Mas estamos no potyrõ:
nos adjutórios, mutirões
e é possível (ainda)
um pedaço p’ra tua gente
p’ra teu guri, curumim, mitã, kunhãtaí,
kybyra, anama, anakã ou ramuia!

Se um dia todos acordarem
deste sono que a serpente atiçou
ou da ganância voraz que a serpente envenenou
entenderemos que não precisamos partir,
apartar - e aí, virá o reino da yby mara-e’yma:
“a terra sem males” de todos os povos!

Índio tem que meter
Então que meta a sua meta
meta apito
meta borduna
meta o que puder
afinal, “eles” nunca tiveram pena de você.
Você até vestia e ainda veste pena
e pode despenar “eles”
e fazer um dabacuri
em pleno século XXI
ou você incorporou a pena cristã?!?!?!

A terra sem males está
para todos, enfim,
p’ra você,
p’ra “eles” e “elas”,
para juntos construirmos
os sonhos sonhados de todos os povos
do mundo inteiro!
este mundo é possível!

Não espere
não desespere
é só você continuar
neste movimento de pé ante pé
por aí, por aqui, por lá
em todo lugar
afirmando quem você é
o que você quer
porque você sabe quem você é
e sabe aonde quer chegar!

Índio tem que!

Abá am-iõ-te!
“Indio vai continuar de pé!”

(Ademario Ribeiro)







Eu, Ademario Ribeiro, teatrólogo, poeta, diretor teatral, pedagogo, ambientalista, presidente da ONG ARUANÃ, originário das Terras dos Payayá, semelhante à Graça Graúna, sigo seus passos, sua fé, sua luta e aos muitos outr@s escritores(oras) da Lista de Literatura Indígena, reiterando o sentimento e as boas palavras da COIMI/NE e Secretaria Municipal de Políticas Públicas de Mulheres e Minorias, a respeito da chapa para presidência da FUNAI:

1º - MARCOS TERENA,
2º - MEGARON TXUKARRAMÃE,
3º - GEREMIAS XAVANTE,
4º - PIRAKUMAN YAWALAPITI,
5º - FERNANDA KAYGANKANG,
6º - AILTON KRENAK E ALVARO TUKANO.

A AFUNDAÇÃO NACIONAL DO ÍNDIO não tem mais tempo/espaço para funcionar em nosso país da forma que vinha ao longo de tormentosas décadas, conivente com as práticas antiindígenas. Basta!
Abá am iõ te!
Índio vai continuar de pé!

Miguel Calmon/Chapada Diamantina/Simões Filho/RM de Salvador, 19 de maio de 2010
Ademario Ribeiro

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Índios e Índios

- Índios do século XVI que foram mais que civilizados nos primeiros momentos da "conquista" e em troca foram exterminados;

- Índios da literatura romântica:"os bons e puros". Aqueles que foram poetizados e poetizáveis e que ganharam nomes nacionais, etc.;

- Índios, I juca pirama, que Gonçalves Dias, traduzia como: "O que há de ser morto, e que é digno de ser morto";

- Índios, as vítimas da selvageria da invasão e conquista; da selvageria do capital e seu lucro sem meios; da selvageria de alguns apóstolos e seus papas;

- Índios, aqueles intrusos e malditos pelos latifundiários que foram os intrusos nas terras milenares dos índios. Que ironia não é? Quem invadiu quem?

- Índios, os urbanos que são as vítimas dos esbulhos, das grilagens, das liminares forjadas, da inoperância da FUNAI e de outros órgãos dos governos;

- Índios, aqueles que entraram espremidos nas cotas;

- Índios, aqueles que por pouco não seriam incluídos nos estudos na sua pátria/continente de Pindorama/Abya Yala e que precisou alterar uma lei e criar a Lei 11.645/08;

- Índios, os atuais. Um misto de índios ainda nas matas, nas cidades, nas universidades. Índios cineastas, índios online, índios pilotos de avião, índios com radares e satélites, índios aculturados afirmando serem índios apesar da roupa, da cor da pele, dos óculos, do bigode - excluídos pelos escopos e gráficos midíocres de serem índios, de serem mestiços, de serem negros, de serem brancos, de serem gente.

Vozes que não se calam:

"Que tragédia é esta que cai sobre todos nós?";

"Apesar da minha roupa/também sou índio";

“Quem me dera
Ao menos uma vez
Como a mais bela tribo
Dos mais belos índios
Não ser atacado
Por ser inocente...

Nos deram espelhos
E vimos um mundo doente
Tentei chorar e não consegui”.


ÍNDIOS EM VALENÇA? VENHA CONFERIR!

Com este importante e emblemático tópico-tema-provocação, Marcos Aguiar do Projeto Índios na Cidade, da ONG Opção Brasil, convidou-me junto ao Juvenal Payayá e Elton Terena, a contribuirmos com algumas atividades na cidade de Valença – na Costa do Dendê, Estado da Bahia, nos dias 23 e 24 de janeiro de 2010. O translado, acolhimento e hospedagem por conta do CEADDH – Centro de Estudos Avançados em Defesa dos Direitos Humanos, do qual tivemos a presença sempre marcante da sua presidenta Drª Elisabeth Barbosa, dos membros do CEADDH e dos acolhedores habitantes valencianos.

Contamos com a contribuição da pedagoga Natalina Bomfim Ribeiro, especialista em tutoria em EaD, especialista em metodologia do ensino superior, pesquisa e extensão em Educação e coordenadora da ONG ARUANÃ e da economista Edilene Payayá, coordenadora da Associação dos Moradores e Amigos de Morro do Chapéu. Além de algumas presenças destacadas da cidade de Valença, contamos também com o Prof. e Escritor Edgar Otacílio que nos ofertou o seu último livro intitulado “Valença”. Um mosaico que apresenta este município e região dos primórdios aos dias atuais.

Vejamos a Programação

Índios em Valença? Venha conferir!!!

Sábado, 23.01.10 – Turno vespertino
1. - Patrimônio cultural dos povos indígenas no Brasil
a) tradições, brincadeiras, jogos, etc.
Na Roda: Ademario Ribeiro, Elton Terena, Juvenal Payayá e Marcos Aguiar.

b) A importância da língua tupi e sua contribuição à língua portuguesa falada no Brasil – Ademario Ribeiro;

2. - Povos Indígenas na Bahia: ontem e hoje;
a) Brevíssimo sobre as diásporas. Confronto com os colonizadores. Extermínio, debandada dos sobrevividos;
b) Resistência e ressurgidos.

Na roda: Ademario Ribeiro, Elton Terena, Juvenal Payayá eMarcos Aguiar.

Sábado, 23.01.10 – Turno vespertino
3. - Direitos Humanos com enfoque para os povos indígenas - com debate.
Na roda: Ademario Ribeiro, Edilene Payayá, Elisabeth Barbosa, Elton Terena, Juvenal Payayá, Marcos Aguiar e Natalina Bomfim Ribeiro.

Domingo, 24.01.10 – Turno matutino
4. - Oficinas das línguas Tupi e Terena – Ademario Ribeiro e Elton Terena;
5. - Feira de artesanato;
6. - Rodas de conversas;
7. - Encerramento com elementos temáticos das Oficinas e com um toré.

Rápidas considerações

Valença e seu entorno são conhecidos internacionalmente como Costa do Dendê. Aquela da qual se deram notas de “terras descobertas” desde as primeiras povoações do Brasil por não-índios quando, por volta da “terceira década do século XVI, o Martim Afonso de Souza, militar e administrador colonial português, a mando do rei D. João III, O Colonizador, comandou uma expedição de cinco navios (1530-1533) com a tríplice missão de explorar a costa desde o Maranhão até o Rio da Prata, impedir o comércio de pau-brasil pelos franceses e fundar os primeiros núcleos lusitanos no Brasil quinhentista”...

Região que seduz a visão para seus rios, vegetação exuberante de mata atlântica, manguezais, saveiros e barcos e localidades paradisíacas como Guaibim e Morro de São Paulo...

Podemos voltar a este evento para algumas minúcias, tais como a toponímia da região e para destaques ao povo atual sem esquecer seus habitantes milenares como os Aymoré e Guerém.

OS HOMENS BONS

Já pensou se a gente começasse por dar nomes aos bois na história que precisa ser reescrita em nosso país? O que poderíamos apresentar sobre os que foram chamados de “Homens bons”? Quantos fidalgos, religiosos, militares, políticos se esconderam sob esta alcunha!!! Comecei a fazer um listinha – como ficou grande – e uma dor a maior se assomou de mim! Quanta gente foi enganada, escravizada, hostilizada, humilhada, estuprada, etc. por estes “Homens bons”... Meu Deus!!! Não tenho forças para editá-la agora. Fica para outra oportunidade!...

HOSPITALIDADE E VISIBILIDADE

Mas, voltando ao evento citado acima, os valencianos receberam muito bem os convidados para discutirem o tema proposto: “Índios em Valença? Venha conferir!”. A Opção Brasil e o CEADDH foram muito felizes a fazerem esta proposição e, inclusive para lá de corajosa -, haja vista o passado desta região que em relação aos aborígenes que foram massacrados, exterminados e no mínimo admoestados a serem o que eram e de estarem milenarmente onde nasceram. Estes aspectos até que foram “abrandados” em virtude talvez do grande assédio sobre os convidados que repito, fomos muito bem acolhidos. Os “ilustres” convidados. Esta era a palavra na boca do povo da cidade para se referir aos índios e aos indigenistas ali presentes no evento. Havia um respeito, uma admiração, um cuidado! Eles vieram mesmo CONFERIR! Auscultar, escutar, chorar, abraçar o índio dos livros, os índios das mídias, os índios sob as várias facetas e talvez tenham em muito vindo reencontra-se com o índio em suas entranhas, em seu sangue, nos seus olhos rasgados ou sem qualquer relação à fenotipia: mas, vieram, sobretudo reencontrar-se com os índios que são o Brasil em nós. Por mais que a “máquina-mania de apartaides” e que se esconde e sobrevive sob vários disfarces e manobras e nos amesquinhem, os índios em nós brasileiros, ainda resistirá:

Abá am iõ te!
“Índio vai continuar de pé!”


Para reflexão, este poema ainda não terminado foi iniciado lá neste Encontro de Valença!

DAS TERRAS INVADIDAS E SEUS NOMES TUPIS E CATÓLICOS
OU
REALIDADES E IGNOMÍNIAS DESCOBERTAS


“Nunca houve um documento
da cultura que não fosse, ao mesmo
tempo, um documento da barbárie.”
(Walter Benjamin)


...ELES, IGREJAS, GADOS E LUCROS...

...E eles foram chegando
E a gente combatia
A gente se afastava
Se entregava
Ou se deixava atraído
Traído ou morria...

Ai eles foram fincando as suas cruzes
E deixando atrás a fumaça e a cinza
Das nossas habitações incendiadas
Seus negócios prosperando
E nossos corpos enfileirados no chão jazendo
E as igrejas iam construindo
Pregando suas cercas que corriam léguas ligeiras
E o gado ia entrando
A gente se afastava
Se entregava
Ou se deixava atraído
Traído ou morria...

E os engenhos moendo canaviais sem fim
E o mel era um fel
Dentro dos meus ancestrais
E ainda incorporado em mim
Em ti

As gentes de Ituberá,
(salto brilhante)
As gentes de boipeba
(cobra de cabeça chata
ou a de tartaruga do lugar)
Kirimurê,
(flauta harmoniosa, silenciosa
E tudo o mais conhecido na história
Na memória do que viria a ser Brasil.

Tudo que era sagrado e natureza
Foi mudado de nome e dono ou exterminado!
Em seus lugares ergueram palácios e casarões,
Usinas e os engenhos,
Igrejas e as riquezas e tudo o mais
De ouro e prataria e especiaria
E consagraram-lhes como:
Monte Pascoal;
Ilha de Vera Cruz;
Terra de Santa Cruz;
Porto Seguro;
Alto do Amparo ou do Socorro;
Vitória da Conquista;
Colina do Senhor do Bonfim;
Valença...
O que esperar de uma história em que piratas são
Nominalizados de fidalgos?
Em que exterminadores, usurpadores e estupradores são “homens bons”?

Mas haverá um tempo
Em que o céu vai clamar
Pelo rio seco
Pelo arvoredo sucumbido
Pelas minhas pajelanças demonizadas
Pelo sol em pino
Em desatino da insolação
Pelas abolições só de papé e pabulage
Pelo progresso que se fez avançar
Sobre o nosso viver – o qual
Não dependia deles
Pelas indústrias que só torraram as matas
E poluíram as águas
Pela mão da criança estendida
Como mendigando ou assaltando

É chegada a hora de tudo descer
De tudo ser revelado:
As profecias estão se cumprindo
E o humano retornará
Ao ventre da Mãe Terra
Para uma nova caminhada
E para a sua purificação final!
(Ademario Ribeiro)

Agradecemos à querida Amanda, pedagoga desta cidade, a gentileza do envio das fotos alusivas àquele momento e à Natalina a socialização destas.






















16 comentários:

  1. Ademario, poeta - amigo - irmão de luta: tua poesia é cortante igual a navalha. Tua poesia é inquieta, é luz que nos tira da escuridão. Tenho mais coisa pra dizer, mas deixo aqui algumas palavrinhas porque não resisti ao tema desta fronteira. Vir por aqui é uma maneira de estampar a minha identidade. Voltarei. Paz em Ñanderu, Grãça Graúna Grão...

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  2. Ôi negríndia Grã! Eu também tenho tanta veneta, tanta carrpeta para kutucar os céus, os pinos. E eu te amo muito e nestas Fronteiras e noutras havemos de encontrar Wirá no colo de Ñanderu -, afinal a paz é Deus transmutado.

    Este blog tem a tua inspiração e as Fronteiras tem a tua bênção!

    Agô, axé, menininha dos Potiuuara e do Povo inteiro!

    AR

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  3. ...de longe, de perto
    daqui,de alhures
    ouvindo os tambores
    seguindo a canção
    pela causa indígena.

    Bjos, meu irmão!
    Grauna....Grão...eno que ñanderu permitir que eu seja....rs...

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  4. Eu aqui outra vez, meu irmão Ademario da terras dos Payaya. Estou aqui para agradecer sua atenção, seu carinho e dizer também que sempre peço a Ñanderu para iluminar teus caminhos, nossos caminhos. Por uma Funaindígena. Grauna....grão...

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  5. Oi Ademário, aqui estou ...
    Sempre acompanho os teus escritos pelo e-mail e gosto muito da tua visão de mundo e a tua luta.
    Também faço parte da Causa Indígena e participo da resistência. O meu outro blog trata exatamente desta temática.
    Obrigada !

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  6. Ôi Sill, algumas fotografias tuas e como me tocaram! Muito grato por tua companhia. Com certeza o caminho será interagido com mais força, sorte e sabedoria. Gostaria de conhecer teu outro blog. Qual o endereço?

    Fica com a Força (Monangareté) e conta com a nossa cumplicidade!

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  7. Oi, Ademário!!! Li seu "post"... em que posso lhe ajudar?

    Anderson Rieper

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  8. Mensagem enviada por e-mail e autorizada a ser publicada aqui por Tamikuan Ará (Marize):

    "Ai Ademario que lindo! É isso mesmo que tu retratas em seu poema. A era dos espelhinhos acabou faz tempo! Se os parentes aldeado não vierem prá cidade reivindicar, as coisas não vão andar.
    O povo brasileiro conhece muito pouco sobre a questão indígena, e sabemos que isso foi deliberado, prá não se construir o sentimento de pertencimento do povo brasileiro às etnias indígenas. Assim é mais fácil reprimir, violentar, destruir...
    Precisamos inclusive pressionar os órgãos de pesquisa a incluir o quesito indígena nas pesquisas que fazem sobre os mais variados temas nas cidades e também nas aldeias.
    Quer um exemplo? o desemprego nas cidades. Só se fala de mulheres, brancos e negros. E indígena???
    Perdura ainda o preconceito de que índio não trabalha! É um mundo complexo este aqui da cidade, a sociedade dos juruá, mas temos que construir este novo enfoque.
    Ademario. Sou guarani, nasci na cidade, mas me recuso a ser colocada na condição de papel! (papel é que é pardo, gente não!).
    Sou professora de História e trabalho nas escolas públicas dando enfoque indígena em tudo que eu posso. Tenho um trabalho de 6 anos com um grupo pluriétnico nas escolas sobre a cultura e lutas indígenas. E vejo a completa ignorância dos professores para tratarem dessas questões. Portanto, se nós não fizermos este trabalho, como a lei 11645/08 vai pegar de verdade?
    Vejo nos seus poemas e de vários outros parentes uma forma inclusive de sensibilização dos professores para as questões que apresentamos. Uma forma de introduzir o debate.
    Temos aqui no Rio o Movimento Tamoio que há 4 anos atrás ocupamos o prédio do Antigo Museu Nacional do Índio em frente ao Maracanã.
    Estamos até hoje lá pois queremos o espaço para a construção do Instituto Tamoio dos Povos Originários. Local que dará visibilidade às lutas indígenas de todo o Brasil aqui no Rio de Janeiro e debaterá a cultura indígena com a sociedade e as escolas, para, além disso, queremos a construção de um alojamento para os estudantes indígenas que vierem estudar na cidade do Rio de Janeiro. Como vês, a luta é árdua.
    Quero todos os seus poemas, são lindos!
    Um forte abraço,

    Marize - Tamikuan Ará"

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  9. Mano Ademario: antes de ontem, dia 1 de junho, acendi mais umas velinhas pra não esquecer que tô ficando mais "veinha"...rs...rs... e feliz, pois ao abrir os e-mais tinha uma mensagem do Terena repassando o seu belo poema "Uns índios" pra lista de Literatura Indígena. Grata surpresa me ver por lá, digo, estar presente mais uma vez em Pensamentações e Fronteiras. Que presente maravilhoso! Não mereço. Gostei tanto do presente que resolvi publicá-lo em meu pequeno blog e como se não bastasse ilustrei o poema com uma foto sua (você de oficineiro)que extrai de Pensamentações. Meu querido mano, você vêlonge, desbrava caminhos. Que Ñanderu multiplique teus saberes. Grata por tudo. Paz e bem, Grauninha

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  10. Marize Oliveira - Tamikuan Ará3 de junho de 2010 16:09

    Ademario. Quando voltar de Santos te contarei as nossas aventuras.
    Vamos eu e Carlos Tukano (Doetiró).

    Marize Oliveira- Tamikuan Ará.

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  11. Graça o Universo é uma grande dádiva de Ñhanderu Eté (Pai Verdadeiro). Tudo reluz, abriga, expam=nde, alimenta e nos salva. Neste sem fim de bênçãos você se transmutou carne e verbo e se fez amiga, mãe, professora, escritora, doutora e... um passarin multicor que está sempre nascendo com cada Kuarasy!

    Pois seja assim, assim é, assim será: bem-vinda, moça à seara, aos pomares, às letras e ao semfim das imensidões!

    Paz e beijos,

    Teu aprendiz e hermano, malungo e kybyra!!!

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  12. Tamikuan e Doetiró, gue!

    Katu eté!
    Muito bom que esteja levando à santos a Palavra do aborígene de Pindorama! O Brasil precisa rápido reconhecer os POvos Indígenas. Chega de perseguição e abandono!

    Pois parentes, usem o fogo da palavra, a água da palavra, a semente da palavar: tudo há de conspirar!

    Simbora!!!

    AR

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  13. Ademario, eu aqui outra vez...é que a tua poesia bate no meu peito, mano. E sendo assim quero sua permissão para declamá-la no Encontro de Escritores Indigenas que acontecerá dia 18 de junho, no Rio de Janeiro. Estarei lá com o seu poema "Uns indos". Tu deixa? ...rs...rs...Paz em Ñanderu, Graçagraunagrão

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  14. Grão, você germina em toda terra. Inté terra seca tu anima com tua força, graças ao pássaro que te habita, ora, renovado com mais um aninho de vida1 Tu é filha de Ñanderu eTé, que posso eu dizer que não use e abuse do que escrevo. É muita honra e lindeza para mim, mana! Só posso é fazer oriki p'rocê, beijar tuas mãos, e me deliciar com tua voz. Que lindo é ouvir tua voz e Uns Índios nela, Monangareté (Força criadora) na Carioca, Terra dos Tamoios -, vai ser katu eté!!

    Beijos e paz!!!

    Honrado. Gratidão.

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  15. Lindo poema Indio tem que...
    São essas manifestações de resgate, de divulgação da nossa cultura que faz a diferença nessa sociedade cruel e apática em que vivemos.
    Essa é a nossa causa , essa é a nossa alma!
    Parabens querido primo.
    Vou usar seu poema na minha fala no dia 7 de setembro aqui em Curitiba, a capital racista, européia e cheia de si.
    Beijos da sua prima
    Silvana

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  16. Sil, é uma honra ter a tua visita, sempre amorosa, forte e cheia de axé! Precisamos trabalhar/apresentar/representar/gritar/amar o que somos. Os índios foram hostilizados a serem estranhos em sua própria terra - e estes foram tão acolhedores com os que vieram de além-mar. Que @s curitiban@s façam a sua reflexão!

    Muito grato, prima querida!

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