sexta-feira, 30 de março de 2012
Lei 11.645/08 e os Povos Indígenas - desafios, diálogos e perspectivas
Observação: para visualizar melhor, segue abaixo, texto extraído do original.
Apresentação
Dialogar para conhecer/reconhecer, construir pontes e ressignificar novas construções/desconstruir percepções. Educar e cuidar do outro para não discriminar, contudo, envolver e desenvolver humanidade, respeito a diversidade - ampliando a noção do relativismo cultural - para etnocivilizarmos diante das semelhanças e dessemelhanças no encontro com o “diferente” de nós (?).
A Lei nº 11.645/08 é um instrumento que pode (RE)construir essas pontes perdidas nas diásporas, nos preconceitos de antes de 1500 e depois de 500 anos – quando uma outra história se inscreve, se apresenta e exige reparações, fortalece afirmações, cidadania.
Professores (as), educadoras (es), suas escolas e práticas formais e não formais de ensino – podem lançar novas sementes, novos olhares e (RE)conhecer esse antigo e novo outro: os povos indígenas, sua história, cultura (sociodiversidade) – que sempre estiveram conosco em suas diversas manifestações - desde ao fazermos uma fogueira, moquearmos o peixe ou carne, nos falares da língua portuguesa, nos nomes comuns aos geográficos, nos olhinhos amendoados, etc.
Que sejam lançadas as sementes de uma nova práxis – não apenas pedagógica, mas também, de (RE)conhecimento, de (RE)encontro com nossas “pertenças ameríndias”, de respeito aos direitos humanos e constitucionais.
LEI 11.645/08
No tocante a esta lei, no ano de 2003, “o Governo Brasileiro sancionou a Lei 10.639/03, que alterou a Lei Federal 9.394 de 20 de dezembro de 1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação - LDB). A partir de então nos estabelecimentos de ensino da rede particular e privada tornou-se obrigatório o ensino da História e da Cultura Afro-Brasileira. No dia 1º de março de 2008 foi promulgada a Lei 11.645/08, alterando novamente a LDB. A nova Lei acrescenta ao texto anterior a obrigatoriedade da História e Cultura dos Povos Indígenas do Brasil”.
OUTRAS BASES LEGAIS
- Constituição Federal de 1988: artigos: 210, 215, 231 e 232;
- Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional: artigos: 26, 32, 78 e 79.
Programação
Dia 11/04/12
Horário: 14h00 às17h00
Local; Auditório da Faculdade Dom Pedro II – Comércio – Salvador – BA.
- Lei 11.645/08 e os povos indígenas – desafios, diálogos e perspectivas. Palestrante: Ademario Ribeiro¹
Objetivo geral
Dialogar sobre a importância da lei 11.645/08, sobre os desafios de sua implementação, assim como, sua inserção no currículo escolar.
Realização: SECULT/CENAP/SUPPE/NUPER
¹Ademario Ribeiro é Pedagogo, escritor (poeta, teatrólogo), pesquisador dos povos indígenas, pesquisador voluntário do Grupo de Estudos Comprados: literatura, história e interdisciplinaridade(GRUPEC) e membro do Grupo de Literatura Indígena.
Créditos das imagens:
http://www.turminha.mpf.gov.br/nossa-cultura/dia-do-indio/galeria-de-pinturas-indigenas/
Google imagens
Jornal Porantim, nº 71/72, 1985.
quinta-feira, 29 de março de 2012
Boa notícia política na Bahia contra a baixaria
Pouca saúde e muita saúva... Se os males no Brasil são tantos... Se o Brasil não é um país sério... Se somos um país do FEBEAPÁ... Se aqui não tem jeito... Se somos um povo é sem memória... Se o mal vence sempre... Se o Brasil não tem mais jeito... Se tudo aqui vira em pizza... Se... se... à parte -, essa notícia merece ser disseminada pelo Brasil afora!
Havemos AINDA de nos manter bem atentos e atuantes em nossa cidadania porque há MUITO o que se fazer!!! Leia abaixo, por favor o que deu no Jornal A Tarde (da Bahia!).
Assembleia aprova por 43 votos contra 9 a lei antibaixaria
Regina Bochicchio
Lucio Tavora /Agência A Tarde
Deputados Luiza Maia, autora do projeto, e Sargento Isidoro comemoraram resultado
Sob aplausos das mulheres que tomaram as galerias da Assembleia Legislativa, o projeto da deputada Luiza Maia (PT), conhecido como Lei Antibaixaria, foi aprovado, na noite desta terça-feira, 27, por 43 votos a nove, após ter o texto reescrito pelo deputado-relator João Bonfim (PDT), que manteve, no substitutivo, porém, a essência da proposta.
Ou seja: o Estado agora não poderá destinar "recursos públicos para contratação de artistas que, no objeto do contrato de show, apresentem músicas que desvalorizem, incentivem a violência ou exponham as mulheres a situações de constrangimento". No lastro, Bonfim acrescentou a proibição a manifestações de homofobia ou discriminação racial e apologia de drogas ilícitas. A lei segue para sanção do governador Jaques Wagner (PT).
Uma emenda do deputado Paulo Azi (DEM) foi acatada: a supressão, no texto, de “danças e coreografias” de cunho depreciativo à mulher, que originalmente eram vedadas. Quer dizer: está liberada a dança no palco. Apesar da satisfação de ver o resultado positivo de sua empreitada, Luiza Maia não gostou do detalhe: “O argumento deles é o de que se não toca a música, não tem a dança. Não é bem assim, fica restrito”, disse.
A lei obriga a inclusão, em contrato, de cláusula para cumprimento da proibição por contratante e contratado. Se o contratante descumprir paga multa de R$ 10 mil. Se o contratado, ou seja, a banda, tocar a música considerada imprópria, a multa equivalerá a 50% do valor do cachê previsto no contrato.
Cruzada - A deputada, agora, dará início à segunda etapa de seu plano: a “Cruzada Antibaixaria” que, segundo ela, se traduz na visita a prefeitos, prefeitas e vereadoras da Bahia para convencê-los a aprovar lei com mesmo teor. Para ser considerada constitucional o relator restringiu a vedação a recursos “estaduais”. Dinheiro da Prefeitura, portanto, pode ser usado para pagar bandas que toquem músicas depreciativas. Outra brecha: não está claro de que forma e qual o orgão ou agente responsável por fazer cumprir a lei qual a penalidade no caso de eventual descumprimento.
Fonte: Jornal Atarde, 27/03/2012 às 23:01
segunda-feira, 26 de março de 2012
O Canário nas minas de carvão e a igualdade civil-moral
O CANÁRIO NAS MINAS DE CARVÃO
José Ribamar Bessa Freire
25/03/2012 - Diário do Amazonas
O canário está ferido. Suas plumas estão tintas de sangue. Ele foi atingido nesta quarta-feira, 21 de março, pelos disparos feitos por trinta e oito deputados que aprovaram, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, um relatório destinado a mudar a atual Constituição Federal do Brasil. A mudança proposta redefine as terras indígenas, quilombolas e ambientais, num retrocesso histórico que, se for confirmado por três quintos dos parlamentares, condena o canarinho à morte.
A imagem do canário é do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. Ele conta que nas minas de carvão do Reino Unido, os mineiros tinham o costume, até 1986, de levar com eles, para dentro dos socavões, um canário em uma gaiola. O bichinho, muito mais sensível que os humanos aos gases tóxicos acumulados dentro dos túneis, começa a agonizar quando o ar fica envenenado. Sua morte é um sinal para os mineiros, um "aviso" de que devem evacuar as galerias. "Canary in the coal mine" - canário na mina de carvão - virou expressão que indica perigo iminente.
Dessa forma, os mineiros usavam o canário como um "indicador ecológico" toda vez que iam cavar os "ossos da terra" - é assim que os Yanomami chamam os metais extraídos das jazidas.
Viveiros de Castro considera que os índios, bem à sua revelia, são os nossos canários sociológicos ou socioambientais. A agonia dos índios é um "aviso", anunciando que a sociedade envolvente está podre, na iminência de falir, do ponto de vista ecológico e sociopolítico. E acontece que, no Brasil, se essa emenda passar, o ar vai ficar irrespirável. Só que, ao contrário dos mineiros, nós não temos para onde nos picar. O nosso destino está amarrado ao das sociedades indígenas.
Nova Era
Aqui, durante cinco séculos, os índios tiveram suas terras pilhadas, saqueadas, usurpadas, sempre através da violência armada. Em 1988, a Assembleia Nacional Constituinte deu um basta nisso, quando aprovou a Constituição, selando um pacto novo com mais de 200 povos. O Brasil falou, então, aos índios, que não era mais possível recuperar os 87% das terras que eles haviam perdido, mas daqui pra frente o Estado garantia a demarcação dos 13% restantes que ainda ocupam. A partir de agora, ninguém mais pode roubar terra de índio.
Esse foi o pacto assumido pela "carta cidadã" de 1988, que acatou o pressuposto da antecedência histórica, reconhecendo aos índios os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, posto que eles estavam aqui antes do que qualquer fazendeiro. O quadro jurídico novo reconhece ainda organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, bem como a relação integrativa com a terra, que é tão essencial para os índios como o ar para qualquer ser vivo.
Com esse espírito, a Constituição criou mecanismos de ações afirmativas para compensar os crimes históricos cometidos contra os índios, permitindo que o país inaugurasse uma "nova era constitucional", para usar a expressão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Ayres Britto, em seu relatório sobre a Terra Indígena Raposa Serra do Sol.
O Brasil chamou, como testemunhas desse novo pacto, o mundo inteiro, quando assinou, em 2002, a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que estabelece, no plano internacional, a proteção das instituições, das pessoas, dos bens e do trabalho dos índios. Depois, no dia 13 de setembro de 2007, numa Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque, o Brasil aprovou a Declaração sobre os Direitos dos Povos Indígenas, e se comprometeu, na frente de todos os países do mundo, que iria respeitar esses direitos.
Agora, 38 deputados pretendem rasgar a Constituição e descumprir os acordos nacionais e internacionais do Brasil. Eles ressuscitaram a Proposta de Emenda Constitucional - a PEC 215/2000 - de autoria do deputado Almir Sá, do PPB (atual PP - vixe, vixe) de Roraima. Esta PEC estabelece que quem decide se uma terra é indígena não é a forma tradicional de ocupação, mas o Congresso Nacional, que pode até mesmo rever as demarcações já feitas. As raposas votam que são elas que devem tomar conta do galinheiro.
O relatório aprovado do deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR - vixe, vixe) retirou essa última parte sobre as terras já demarcadas, mas conservou o restante, que representa um golpe contra índios e quilombolas. Manteve várias outras propostas incorporadas à PEC 215, como a do deputado Carlos Souza (PSD-AM, vixe, vixe), que determina que as Assembleias Legislativas devem ser consultadas sobre demarcações - o que é competência da União - "a fim de se evitarem os significativos prejuízos que a demarcação de terras indígenas impõe às unidades federadas". Ele não explica que prejuízos são esses e, afinal, quem são os prejudicados.
Agonia do canário
A sessão da CCJ, tumultuada, durou mais de quatro horas. Os índios, é claro, se fizeram presentes e protestaram, entre eles, Jaci Makuxi, comandante da luta pela demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Tiveram o apoio do deputado Alessandro Molon (PT-RJ), para quem a PEC é um "gravísimo retrocesso, gritantemente inconstitucional, que atende a sanha do ruralistas por novas terras".
O relatório foi aprovado com o voto de 38 deputados da CCJ. Entre eles, a fina flor da moralidade pública, da retidão e da honestidade, com uma larga folha de serviços prestados a si próprios: Paulo Maluf, Esperidião Amin, Alberto Lupion, Eduardo Cunha, Eliseu Padilha e - que vergonha! - Roberto Freire, além dos cultivadores de cacau do sul da Bahia, Felix Mendonça e Paulo Magalhães, inimigos declarados dos Pataxó e Tupinambá.
Agora, com o relatório aprovado, uma Comissão especial criada exclusivamente para isto, vai elaborar a emenda que deve ser apresentada ao plenário. Resta saber se a parte sadia do Brasil vai assistir acocorada, de braços cruzados, a morte do canário, e vai morrer junto com ele, ou se vai se levantar contra essa vergonhosa legislação em causa própria.
O ministro Ayres Britto, que assumirá a presidência do Supremo Tribunal Federal, representa um fiapo de esperança. Quando ele foi relator no caso Raposa Serra do Sol desmontou o alegado antagonismo entre a questão indígena e o desenvolvimento e defendeu "a efetivação de um novo tipo de igualdade, qual seja, a igualdade civil-moral de minorias que têm experimentado historicamente e por preconceito desvantagem corporativa com outros segmentos sociais".
Contra essa igualdade civil-moral é que votaram os 38 deputados, que parecem retomar o espírito das comemorações do Quarto Centenário do Descobrimento do Brasil, cuja sessão magna, no dia 4 de maio de 1900, foi aberta com um discurso do engenheiro Paulo de Frontin, empossado depois como prefeito do Rio de Janeiro. Ele disse, com todas as letras, que o Brasil nada tinha de indígena: "Os selvícolas (...), não são nem podem ser considerados parte integrante da nossa nacionalidade; a esta cabe assimilá-los e, não o conseguindo, eliminá-los".
O cara, que presidia as solenidades, estava propondo eliminar os índios, como se estivesse dando um presente de aniversário ao País. Afinal, qual é o lugar dos índios na construção do Brasil? Se for aquele planejado por Paulo de Frontin e pelos ruralistas, então quem está ameaçada é toda a sociedade brasileira, nós, nossos filhos e nossos netos, e já podemos ouvir os gritos soando nas galerias: - "Canary in the coal mine".
Fonte: http://www.taquiprati.com.br/cronica.php?ident=972
José Ribamar Bessa Freire
25/03/2012 - Diário do Amazonas
O canário está ferido. Suas plumas estão tintas de sangue. Ele foi atingido nesta quarta-feira, 21 de março, pelos disparos feitos por trinta e oito deputados que aprovaram, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, um relatório destinado a mudar a atual Constituição Federal do Brasil. A mudança proposta redefine as terras indígenas, quilombolas e ambientais, num retrocesso histórico que, se for confirmado por três quintos dos parlamentares, condena o canarinho à morte.
A imagem do canário é do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. Ele conta que nas minas de carvão do Reino Unido, os mineiros tinham o costume, até 1986, de levar com eles, para dentro dos socavões, um canário em uma gaiola. O bichinho, muito mais sensível que os humanos aos gases tóxicos acumulados dentro dos túneis, começa a agonizar quando o ar fica envenenado. Sua morte é um sinal para os mineiros, um "aviso" de que devem evacuar as galerias. "Canary in the coal mine" - canário na mina de carvão - virou expressão que indica perigo iminente.
Dessa forma, os mineiros usavam o canário como um "indicador ecológico" toda vez que iam cavar os "ossos da terra" - é assim que os Yanomami chamam os metais extraídos das jazidas.
Viveiros de Castro considera que os índios, bem à sua revelia, são os nossos canários sociológicos ou socioambientais. A agonia dos índios é um "aviso", anunciando que a sociedade envolvente está podre, na iminência de falir, do ponto de vista ecológico e sociopolítico. E acontece que, no Brasil, se essa emenda passar, o ar vai ficar irrespirável. Só que, ao contrário dos mineiros, nós não temos para onde nos picar. O nosso destino está amarrado ao das sociedades indígenas.
Nova Era
Aqui, durante cinco séculos, os índios tiveram suas terras pilhadas, saqueadas, usurpadas, sempre através da violência armada. Em 1988, a Assembleia Nacional Constituinte deu um basta nisso, quando aprovou a Constituição, selando um pacto novo com mais de 200 povos. O Brasil falou, então, aos índios, que não era mais possível recuperar os 87% das terras que eles haviam perdido, mas daqui pra frente o Estado garantia a demarcação dos 13% restantes que ainda ocupam. A partir de agora, ninguém mais pode roubar terra de índio.
Esse foi o pacto assumido pela "carta cidadã" de 1988, que acatou o pressuposto da antecedência histórica, reconhecendo aos índios os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, posto que eles estavam aqui antes do que qualquer fazendeiro. O quadro jurídico novo reconhece ainda organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, bem como a relação integrativa com a terra, que é tão essencial para os índios como o ar para qualquer ser vivo.
Com esse espírito, a Constituição criou mecanismos de ações afirmativas para compensar os crimes históricos cometidos contra os índios, permitindo que o país inaugurasse uma "nova era constitucional", para usar a expressão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Ayres Britto, em seu relatório sobre a Terra Indígena Raposa Serra do Sol.
O Brasil chamou, como testemunhas desse novo pacto, o mundo inteiro, quando assinou, em 2002, a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que estabelece, no plano internacional, a proteção das instituições, das pessoas, dos bens e do trabalho dos índios. Depois, no dia 13 de setembro de 2007, numa Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque, o Brasil aprovou a Declaração sobre os Direitos dos Povos Indígenas, e se comprometeu, na frente de todos os países do mundo, que iria respeitar esses direitos.
Agora, 38 deputados pretendem rasgar a Constituição e descumprir os acordos nacionais e internacionais do Brasil. Eles ressuscitaram a Proposta de Emenda Constitucional - a PEC 215/2000 - de autoria do deputado Almir Sá, do PPB (atual PP - vixe, vixe) de Roraima. Esta PEC estabelece que quem decide se uma terra é indígena não é a forma tradicional de ocupação, mas o Congresso Nacional, que pode até mesmo rever as demarcações já feitas. As raposas votam que são elas que devem tomar conta do galinheiro.
O relatório aprovado do deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR - vixe, vixe) retirou essa última parte sobre as terras já demarcadas, mas conservou o restante, que representa um golpe contra índios e quilombolas. Manteve várias outras propostas incorporadas à PEC 215, como a do deputado Carlos Souza (PSD-AM, vixe, vixe), que determina que as Assembleias Legislativas devem ser consultadas sobre demarcações - o que é competência da União - "a fim de se evitarem os significativos prejuízos que a demarcação de terras indígenas impõe às unidades federadas". Ele não explica que prejuízos são esses e, afinal, quem são os prejudicados.
Agonia do canário
A sessão da CCJ, tumultuada, durou mais de quatro horas. Os índios, é claro, se fizeram presentes e protestaram, entre eles, Jaci Makuxi, comandante da luta pela demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Tiveram o apoio do deputado Alessandro Molon (PT-RJ), para quem a PEC é um "gravísimo retrocesso, gritantemente inconstitucional, que atende a sanha do ruralistas por novas terras".
O relatório foi aprovado com o voto de 38 deputados da CCJ. Entre eles, a fina flor da moralidade pública, da retidão e da honestidade, com uma larga folha de serviços prestados a si próprios: Paulo Maluf, Esperidião Amin, Alberto Lupion, Eduardo Cunha, Eliseu Padilha e - que vergonha! - Roberto Freire, além dos cultivadores de cacau do sul da Bahia, Felix Mendonça e Paulo Magalhães, inimigos declarados dos Pataxó e Tupinambá.
Agora, com o relatório aprovado, uma Comissão especial criada exclusivamente para isto, vai elaborar a emenda que deve ser apresentada ao plenário. Resta saber se a parte sadia do Brasil vai assistir acocorada, de braços cruzados, a morte do canário, e vai morrer junto com ele, ou se vai se levantar contra essa vergonhosa legislação em causa própria.
O ministro Ayres Britto, que assumirá a presidência do Supremo Tribunal Federal, representa um fiapo de esperança. Quando ele foi relator no caso Raposa Serra do Sol desmontou o alegado antagonismo entre a questão indígena e o desenvolvimento e defendeu "a efetivação de um novo tipo de igualdade, qual seja, a igualdade civil-moral de minorias que têm experimentado historicamente e por preconceito desvantagem corporativa com outros segmentos sociais".
Contra essa igualdade civil-moral é que votaram os 38 deputados, que parecem retomar o espírito das comemorações do Quarto Centenário do Descobrimento do Brasil, cuja sessão magna, no dia 4 de maio de 1900, foi aberta com um discurso do engenheiro Paulo de Frontin, empossado depois como prefeito do Rio de Janeiro. Ele disse, com todas as letras, que o Brasil nada tinha de indígena: "Os selvícolas (...), não são nem podem ser considerados parte integrante da nossa nacionalidade; a esta cabe assimilá-los e, não o conseguindo, eliminá-los".
O cara, que presidia as solenidades, estava propondo eliminar os índios, como se estivesse dando um presente de aniversário ao País. Afinal, qual é o lugar dos índios na construção do Brasil? Se for aquele planejado por Paulo de Frontin e pelos ruralistas, então quem está ameaçada é toda a sociedade brasileira, nós, nossos filhos e nossos netos, e já podemos ouvir os gritos soando nas galerias: - "Canary in the coal mine".
Fonte: http://www.taquiprati.com.br/cronica.php?ident=972
quinta-feira, 22 de março de 2012
DIA MUNDIAL DA ÁGUA - 22 DE MARÇO
(Encontro do Rio Joanes com o Ipitanga)
ABOIO E PERCUSSÃO EM LOUVOR À ÁGUA
Aos Companheiros do Projeto Encontro das Águas
Ê Rio, ê mar!
Que a aporrinhação do homem,
Seu ciúme e sua dor
Não joguem estrepe plástico chumbo
Mercúrio cádmio, manganês
Petróleo cromo arsênio ferro cobre
Detergente pesticida...BOMBA!
Sobre tuas águas ligeiras!
(Rio Muriqueira em Góes Calmon/Simões Filho)
Ê Rio, ê mar!
Os meninos brincam em tuas ingazeiras
Os animais se saciam em tuas anáguas
O namoro dos apaixonados em tuas barrancas
Os pescadores sobre teus lençóis
Azuis, cristais, práteos e verdes:
Trazem para a terra o sustento
De tuas gentes!...
(Rio JOanes em Cordoaria)
- Entram Subaé e Mataripe! Ê! Ê! –
Sai ganância: Chô! Chô!
- Entram Pojuca e Jacuipe! Ê! Ê! –
Sai ignorância: Chô! Chô!
- Entram Velho Chico e Subaé! Ê!Ê! –
Sai ganância: Chô! Chô!
- Entram Jacurana e Jaguaripe! Ê! Ê! –
Sai ignorância: Chô! Chô!
- Entram Almada e Sapato! Ê! Ê! –
Sai ganância: Chô! Chô!
- Entram Salitre e Traripe! Ê! Ê! –
Sai ignorância: Chô!Chô!
- Entram Paraguaçu e Itamboatá! Ê! Ê! –
Sai ganância: Chô! Chô!
- Entram Joanes e Itapicuru! Ê! Ê! –
Sai ignorância: Chô! Chô!..
(Mangue Maternidade Mãe Mulher: Marulho
Marola Mares Movimentos da Vida!
ÁGUA, Mãe da Vida!!!
(Rio Ipitanga em Portão)
NOTA: Cachoeira do Paraguaçu, 22 de março de 1998 – Dia Mundial da Água, Lançamento da Cartilha ECOS – SOS Água da ARUANÃ.
(Rio Joanes em Parafuso: pegue esse barco conosco!))
Créditos das fotos: Ademario Ribeiro
Fonte:
RIBEIRO, Ademario. Poética Poranduba - Eco-Étnica. Salvador: Editora do Autor, 2001.
ABOIO E PERCUSSÃO EM LOUVOR À ÁGUA
Aos Companheiros do Projeto Encontro das Águas
Ê Rio, ê mar!
Que a aporrinhação do homem,
Seu ciúme e sua dor
Não joguem estrepe plástico chumbo
Mercúrio cádmio, manganês
Petróleo cromo arsênio ferro cobre
Detergente pesticida...BOMBA!
Sobre tuas águas ligeiras!
(Rio Muriqueira em Góes Calmon/Simões Filho)
Ê Rio, ê mar!
Os meninos brincam em tuas ingazeiras
Os animais se saciam em tuas anáguas
O namoro dos apaixonados em tuas barrancas
Os pescadores sobre teus lençóis
Azuis, cristais, práteos e verdes:
Trazem para a terra o sustento
De tuas gentes!...
(Rio JOanes em Cordoaria)
- Entram Subaé e Mataripe! Ê! Ê! –
Sai ganância: Chô! Chô!
- Entram Pojuca e Jacuipe! Ê! Ê! –
Sai ignorância: Chô! Chô!
- Entram Velho Chico e Subaé! Ê!Ê! –
Sai ganância: Chô! Chô!
- Entram Jacurana e Jaguaripe! Ê! Ê! –
Sai ignorância: Chô! Chô!
- Entram Almada e Sapato! Ê! Ê! –
Sai ganância: Chô! Chô!
- Entram Salitre e Traripe! Ê! Ê! –
Sai ignorância: Chô!Chô!
- Entram Paraguaçu e Itamboatá! Ê! Ê! –
Sai ganância: Chô! Chô!
- Entram Joanes e Itapicuru! Ê! Ê! –
Sai ignorância: Chô! Chô!..
(Mangue Maternidade Mãe Mulher: Marulho
Marola Mares Movimentos da Vida!
ÁGUA, Mãe da Vida!!!
(Rio Ipitanga em Portão)
NOTA: Cachoeira do Paraguaçu, 22 de março de 1998 – Dia Mundial da Água, Lançamento da Cartilha ECOS – SOS Água da ARUANÃ.
(Rio Joanes em Parafuso: pegue esse barco conosco!))
Créditos das fotos: Ademario Ribeiro
Fonte:
RIBEIRO, Ademario. Poética Poranduba - Eco-Étnica. Salvador: Editora do Autor, 2001.
terça-feira, 20 de março de 2012
RECITAL NA PRAÇA CASTRO ALVES - FOTOS
Eu e Graça Graúna (GG) temos tecido um diálogo que vem desde a nossa participação na Lista de Literatura Indígena, cuja moderação é da professora e escritora Eliane Potiguara, inclusive, ambas são filhas do povo Potiguara (RN).
Desses fios trançados vimos construindo uma teia que nos oportunizou se conhecer pessoalmente em Garanhuns (PE), a seu convite na realização da Oficina de Literatura Indígena, coordenada por ela. Foi mais que brilhante o encontro dos dois parentes e tecedores de fios/letras/amizade – foi com reencontro um fio cósmico que sempre nos uniu e não aonde cada um se encontrava – mas que ambos, cada qual no eu canto sabia que existia outro ente assim: hermano, malungo, kybyra (respectivamente, em: espanhol, em: kimbundo/kikongo e em: tupi) – e que mais cedo ou tarde haveria de ambos se entrelaçar.
Entrelaces e desenlaces à parte – prosseguimos. Na Lista, embora de Literatura Indígena, muit@s afro-brasileir@s por lá interagimos a malungagem. Eu desde os anos setenta que tenho encetado em minha modesta obra de teatro, poesia e artigos, além da participação nos movimentos sociais esse entrelace: amefroindígena – negríndio – indiafro... Essa identificação nos une e cremos bastante numa utopia de que já construímos alianças poderosas no passado e no presente – que não demore – possamos avançar e concretizar semelhanças e dessemelhanças num rosto multidiverso sem se perder a identidade/unidade.
Dias atrás ela me falou de outra oportunidade de nos entrelaçar pessoalmente, já que interagimos via Internet quase que todos os dias ou semanalmente. Apresentou sua proposta e planejamento para sua Universidade de Pernambuco (UPE), em virtude da Disciplina de Literatura Brasileira I – do V Período do Curso de Letras dessa instituição e sob sua orientação e coordenação que se estabeleceu o Recital: De Castro Alves aos Poetas do século XXI: a poesia engajada às lutas pela liberdade, na Praça Castro Alves - Centro Histórico de Salvador (BA), às 10h00 do dia 17.03.2012.
E assim, ante a belííííísima vista de Kirimurê - Baía de Todos os Santos (BTS), a excursão de Pernambuco a Bahia, tem seu ponto alto quando o sol na Praça do Poeta, do Poco como também é do Condor e do Avião - era suficientemente soberano, quase causticante, a poesia a assaltou e amenizou o clima com o talento, a verve, a performance e simplescidade d@s poetas que ali se fizeram presentes, gritando sua paixão à Ela e cantando parabéns ao nosso Poeta Maior! Eram eles e elas:
Ademario Ribeiro
Ailton Silva & Guerra
Douglas de Almeida
Edgar Velame
Edmilson Baraúnas
Francisco Assunção
Jorge Mello
Graça Graúna
Ivan Maia
Lílian Carneiro
Marcos Peralta
Participação especial:Dayvid William & Pedro Afonso. Estudantes visitantes, alunos da Profª Graça Graúna.
Apoio artístico dos poetas presentes.
Apoios decisivos e altruístas na logística: Natalina e Yã Bomfim Ribeiro, Márcia Barbosa, Emilene Moraes, Jorge Salles, Francisco Assunção, Everaldo Augusto, Elza Veiga e Cleide Ferreira.
A tod@s a minha gratidão mais profunda!
AR
Veja mais:
http://ggrauna.blogspot.com.br/2012/03/ciranda-poetica-na-praca-ao-povo-da.html
Créditos das fotos:
Natalina Bomfim Ribeiro & Yã Bomfim Ribeiro
A Terra é dos índios, e o carbono de quem é?
As caravelas continuam chegando - com outros nomes, estratégias, contudo, com as mesmas intenções das primeiras, antes de 1500. Claro, que há excessões e essas são bem-vindas. Porque não suportamos mais escravidões, extermínios, diásporas, perseguições, genocídios, criminalizações, preconceitos...
Leia abaixo, trechos do texto publicado no Carta Capital - sobre o que vem ocorrendo em terras indígenas acerca do negócio do carbono. Reflita e tire suas conclusões.
Grato por sua atenção.
Ademario.
Amazônia - 10.03.2012 10:58
A Terra é dos índios, e o carbono de quem é?
Por Natalia Viana, Ana Aranha, Jessica Motta e Carlos Arthur França
O vídeo promocional da empresa Celestial Green Ventures – “verde celestial”, em português” – traz imagens de uma reunião em uma localidade não identificada, na Amazônia. Em meio a fotos, com fundo musical, o irlandês Ciaran Kelly, CEO, explica: “Nós sentamos com a comunidade local, há uma discussão muito aberta, dizemos o que temos que fazer, quais são as suas responsabilidades e as nossas. Se concordamos, prosseguimos”.
O português João Borges de Andrade, chefe de operações no Brasil, aparece em fotos rodeado pela população local. “Eu gosto do contato com essas pessoas, elas são muito gentis e muito amigáveis. É emocionante”.
A Celestial Green atua em um novo setor que se fortalece nos recônditos da Amazônia brasileira: a venda créditos de carbono com base em desmatamento evitado, focado nas florestas. Por estes créditos, a empresa tem procurado indígenas de diversas etnias e teria assinado contratos com os Parintintin, do Amazonas, e Karipuna do Amapá, segundo as suas páginas no tweeter e facebook.
No dia 22 de setembro do ano passado, o mesmo João Borges, da Celestial Green, foi a uma reunião a respeito de um contrato de crédito de carbono com os índios Munduruku, na Câmara Municipal de Jareacanga, no Pará. Assim que ficou sabendo, a missionária Izeldeti Almeida da Silva, que trabalha há dois anos com os Munduruku, correu para lá: “Fui pega de surpresa. Depois falei com um dos líderes e ele disse que fazia tempo que estavam negociando com um grupo pequeno de lideranças”.
Quando chegou à sala de reunião, diz a freira, o espaço estava cheio. Estavam todos lá: caciques, cacicas, mulheres e crianças. Muitos vestidos para guerra: pintados, com arcos e roupas tradicionais. A reunião foi fotografada pelos dois lados. “Os guerreiros e as guerreiras estavam muito brabos com o pessoal que foram falar lá em cima”, lembra o cacique Osmarino. “As guerreiras quase bateram neles”.
Segundo Izeldeti, o representante da empresa mal conseguiu falar. “Eles gritavam em voz forte que estavam cansados de ser enganados. Disseram: ‘nós sabemos cuidar da floresta, não precisa de ajuda’. As mulheres guerreiras ficaram na fila e cada uma foi falando em Munduruku. Meteram a flecha perto do coração, passavam no pescoço. O representante da empresa disse que não entendia a língua, mas que não tava gostando porque era sinal de ameaça”. O contrato, no entanto, acabou sendo assinado naquele mesmo dia – tanto a empresa quanto os indígenas confirmam.
De acordo com Izeldeti e Osmarino, porém, o contrato foi assinado contra a vontade da maioria da população Munduruku.
Para concluir a leitura do texto integral ver o link (fonte): http://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-terra-e-dos-indios-e-o-carbono-de-quem-e/
Fonte das imagens (1, 2 e 3): Google imagens
Fonte da ilustração de Tupac Katari esquartejado: PORANTIM. Brasília: CIMI,jan./fev., n.71/72, 1985: 13.
segunda-feira, 19 de março de 2012
Celebração das Culturas dos Sertões
Sou sertanejo e sei o quanto a minha terra e minha gente são representativos em minha vida - o quanto ser do Sertão é uma identidade que me aproxima e me implele às pertenças de atitudes, compreensões e percepções de que sou e perpassam por mim: a caatinga, a resiliência, as diásporas, a anelada libertação, a água, a seca, o licurizeiro, o xiquexique, a macambira, os lajedos, os pios de pássaros, os arrebóis, os sonhos, a agonia e tantos entes, quase em número infinito e que nem sempre são vistos e não serão vistos de qualquer jeito: é preciso ter um "jeito" de olhar para ver, etc. Ora, desejo aqui anunciar um evento que vai tratar das Culturas dos Sertões. Leia abaixo, por favor:
I Encontro de Estudos das Culturas dos Sertões
Inscrições até 30 de março
Celebração das Culturas do Sertão debaterá projetos culturais que envolvam os sertões e incentive o surgimento de novas iniciativas referidas a este universo cultural.
Os interessados em apresentar seus trabalhos para o I Encontro de Estudos das Culturas dos Sertões têm até o próximo dia 30 de março para efetuar inscrição. O evento, que acontece nos dias 07 e 08 de maio de 2012, no Centro de Cultura Amélio Amorim, em Feira de Santana, abrange sessões de estudos, debates e discussões de trabalhos que analisem e reflitam sobre as culturas dos sertões. As apresentações acontecerão em sessões, coordenadas pelo professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Alberto Freire, e pelo historiador e pesquisador da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Roberto Dantas, com os temas ‘Os sertões no cinema’, ‘Identidades e modos de vida dos sertões’ e ‘Os sertões pelas letras’.
O objetivo do Encontro de Estudos é estimular a articulação de projetos culturais já existentes, que envolvam os sertões e incentivem o surgimento de novas iniciativas referidas a este universo cultural. Para se inscrever, é necessário enviar um resumo expandido de no máximo duas páginas, com formatação conforme normas da ABNT, contendo título, nome do autor e palavras-chave, além de titulação, profissão e identificação dos vínculos do autor (es) com o tema em nota de rodapé. As inscrições deverão ser enviadas para o email culturadosertao2012@gmail.com.
O Encontro integra as atividades do evento Celebração das Culturas dos Sertões que acontece entre os dias 05 e 11 de maio no Teatro Castro Alves, em Salvador e no Centro Cultural Amélio Amorim, em Feira de Santana. A realização da Secretaria de Cultura da Bahia, através do Centro de Culturas Populares e Identitárias, busca promover, reconhecer e difundir a diversidade da cultura sertaneja em suas linguagens e manifestações. A Celebração tem ainda o intuito de criar um evento anual que insira as manifestações da cultura sertaneja no calendário oficial do estado, além de contribuir com a seqüência e solidificação do processo de territorialização da cultura na Bahia, importante diretriz para a Secretaria de Cultura, bem como com a ampliação do diálogo intercultural.
Fonte: http://www.cultura.ba.gov.br/2012/03/16/i-encontro-de-estudos-das-culturas-dos-sertoes-recebe-inscricoes-ate-30-de-marco/
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